Eliane Cantanhêde … A promessa das Farc de acabar com sequestro de civis é um reconhecimento de exaustão, a vitória do antigo e do atual governos da Colômbia e um alívio para toda a América do Sul, onde os principais problemas diplomáticos giram em torno da guerrilha colombiana. Acaloradas votações na OEA, Colômbia versus Venezuela, Colômbia versus Equador, troca de farpas entre Bogotá e Brasília, tudo isso é gerado pela existência e incrível resistência das Farc. Com o declínio do grupo -que, frise-se, ainda tem estimados 9.000 guerrilheiros- e com Chávez ocupado em salvar a própria vida, o ambiente tende a desanuviar. Surgidas como guerrilha comunista, as Farc sobreviveram à perestroika, ao Muro de Berlim, ao êxtase capitalista da China e ao fim de praticamente todos os grupos armados na América Latina. Mas, se não morreu, transformou-se. Ou desfigurou-se. Ao longo das décadas, as Farc se transformaram num “Frankenstein”: a utopia comunista cedeu ao pragmatismo do narcotráfico, os inimigos deixaram de ser os imperialistas para ser qualquer um -inclusive meros civis. Em nome do povo, as Farc viraram o pavor do povo. O Brasil atravessou todos esses momentos recusando-se a reconhecer as Farc como “grupo terrorista”, como pedia Álvaro Uribe e seguiu pedindo seu sucessor Juan Manuel Santos. Vá-se entender por que… O fato é que as Farc estão cercadas, grampeadas, sem comunicação, sem abastecimento e não têm mais para onde correr, literalmente, depois que a Colômbia assumiu todos os riscos e ônus internacionais e invadiu território equatoriano para liquidar o líder Raúl Reyes. Na sequência, o ícone Manuel Marulanda foi morto e o troféu Ingrid Betancourt foi libertado numa ação espetacular de inteligência. Estamos vendo o início do fim das Farc e, com ele, o fim de uma era e de uma geração que sonhou e acordou entre os Andes e a Patagônia.

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