18/05/2012 – 3:51 Ao lado do vice Temer, Jobim ataca ‘submissão’ 0
Josias de Souza

Concebido como evento festivo, um fórum nacional realizado pelo PDMB em Brasília converteu-se em sessão de descarrego. Personagem secundário, o ex-ministro Nelson Jobim virou protagonista do encontro ao despejar, ao lado do vice-presidente República Michel Temer, um lote de críticas ácidas à “submissão” da legenda ao governo e ao PT.

“O PMDB e as Eleições Municipais”, eis o nome do fórum. Presentes, candidatos a prefeito e a vereador de todo país. Escalado como palestrante, Jobim deveria discorrer sobre um tema anódino: “Os municípios e o pacto federativo”. Para surpresa geral, pronunciou um discurso com duros ataques à estratégia partidária que tem em Temer seu principal mentor.

“É o momento de termos cara e voz”, disse Jobim. “E quem não tem cara a voz, curva-se. E quem se curva-se, toma um pontapé.” Para ele, o partido precisa ter “posição”. Algo que implica “correr riscos”. E a legenda foge do risco há mais de duas décadas.

“O PMDB não quer correr risco desde 1989. E ficamos sempre pagando por não termos candidatura, por não termos posição e ficarmos sempre à deriva”, disse Jobim, evocando a malograda candidatura presidencial de Ulysses Guimarães, a última que o partido levou às urnas.

Valendo-se de um timbre que surpreendeu pelo azedume, Jobim disse que o PMDB se abstém de tomar posição em relação a temas relevantes. Citou a guerra fiscal, a troca do indexador das dívidas dos Estados, a redivisão dos royalties petrolíferos e a revisão do rateio de tributos federais feito por meio do Fundo de Participação dos Estados.

Dirigindo-se a Temer, Jobim declarou que o PMDB não tem posição porque falta-lhe “opinião” sobre os temas. Bateu abaixo da linha da cintura: “Nos tornamos homologadores.” Para ele, o partido avaliza decisões das quais não participa e depois ainda sujeita-se às cobranças de “lealdade” ao governo. A plateia reagiu com aplausos efusivos.

A pregação de Jobim vai na contramão do projeto personificado por Temer. Fechado com a tese da reeleição de Dilma Rousseff, o atual vice-presidente e seu grupo trabalham para repetir em 2014 a mesma chapa de 2010, renovando a parceria com o PT.

Temer foi ao microfone na sequência de Jobim. Algo contrafeito, empunhou panos quentes. Classificou de “naturais” e “saudáveis” as críticas. Atribuiu à democracia interna comportamentos como o de Jobim. “Nos demais partidos não verificamos uma posição como essa de os nossos membros falarem mal do PMDB internamente.”

Porém, fugindo à sua característica, o vice-presidente rebateu Jobim. Realçou que, no momento, a “desunião” não serve senão à causa dos que disputam com o PMDB. Sobre a candidatura presidencial disse que a discussão não é “matéria vedada”. Mas não incluiu o tema entre as prioridades da legenda. A saber: eleger o maior número possível de prefeitos em 2012 e controlar as presidências da Câmara e do Senado em 2013.

Embora o discurso de Jobim tenha soado como música para as bases municipais presentes ao encontro, a posição do ex-ministro é minoritária na cúpula. Demitido por Dilma da pasta da Defesa em agosto do ano passado, após criticar colegas de Esplanada, Jobim é visto como uma espécie de peixe for a d’água.

Ele próprio já admitiu que, em 2010, votou em José Serra, não em Dilma. De resto, os dirigentes da legenda afirmam que, ainda que existisse vontade, faltam nomes ao PMDB para arrostar uma disputa presidencial. Assim, a maior legenda do país vai se eternizando no papel de linha auxiliar –outrora do PSDB, agora do PT.

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