Ex-presidente chegou ao fundo do poço em outubro de 2005, mas se reelegeu no ano seguinte e bateu recordes históricos de boa avaliação no fim do segundo mandato

Ricardo Galhardo– iG São Paulo | 02/08/20

“Lula é um cara tão predestinado que as coisas viram a favor dele até quando deveriam ser contra”, disse um ministro lotado no 3º andar do Palácio do Planalto, ex-colaborador e amigo de longa data do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Réus: Saiba o que fazem e por onde andam os acusados

Mensalão: Acusada de sacar dinheiro trabalha hoje em empresa de minivans

Cronologia do mensalão: Relembre o maior escândalo do governo Lula

Mensalão: Quem são os 38 réus e a que crime respondem

Em números: Processo do mensalão bate todos os recordes do STF

O ministro se referia aos efeitos práticos do mensalão para o governo Lula. “Foi um escândalo para derrubar o presidente, mas acabou proporcionando a virada para cima do governo”, explicou.

Agência Brasil

Lula troca Dirceu por Dilma e abre espaço no governo para a então ministra chegar à Presidência

Em 2005, quando Roberto Jefferson deu a explosiva entrevista que desencadeou o escândalo, o governo Lula patinava. O Fome Zero havia naufragado, seu sucessor, o Bolsa Família ainda não tinha decolado, Luz Para Todos e ProUni não passavam de esboços, Minha Casa Minha Vida não havia nem sequer sido concebido, o PIB cresceria apenas 2,3% naquele ano provocando uma divisão interna no governo entre os monetaristas e os que defendiam a aceleração na queda da taxa básica de juros.

Os ministros José Dirceu (Casa Civil), que cuidava da gerência administrativa e da articulação política, e Antonio Palocci (Fazenda), responsável pela economia, travavam uma disputa surda pela sucessão de Lula enquanto o governo decepcionava, colocando em risco a própria reeleição do petista.

Advogados: Um em cada quatro réus do mensalão alega cerceamento de defesa

Infográficos: Veja como será o julgamento do mensalão

Então veio o escândalo e Dirceu foi substituído por Dilma Rousseff, até então responsável pela pasta de Minas e Energia. A nova ministra assumiu a gerência governamental e o próprio Lula tomou para si a condução política. Alguns meses depois foi a vez de Palocci cair por ter violado o sigilo bancário de um caseiro, no rastro do escândalo.

As disputas internas foram reduzidas a um nível aceitável. Dilma, sem preocupações políticas, tirou os principais programas do papel. Lula reassumiu as rédeas, a economia melhorou e o governo entrou nos eixos.

“É só dar uma olhada nas pesquisas para ver como o escândalo, no final das contas, acabou sendo bom para o Brasil”, argumentou o ministro.

Leia também: Defesa de Dirceu acusa Jefferson de inventar mensalão

As brechas jurídicas que podem salvar os réus do mensalão

Leia mais: Defesa de Valério vai admitir caixa 2 e acusar delator de inventar mensalão

Lula chegou ao fundo do poço em outubro de 2005, quatro meses depois que o mensalão veio a público e no auge da repercussão do caso na imprensa e na sociedade. Naquele mês, o Datafolha publicou uma pesquisa mostrando que o número de pessoas que consideravam o governo bom/ótimo era igual ao dos que o avaliavam como ruim/péssimo, 28%, o pior índice da era Lula. A partir de então a avaliação do governo entrou numa linha ascendente até atingir os históricos 83% de bom/ótimo em dezembro de 2010.

Lula aproveitou o mensalão para tirar Dirceu e Palocci do governo? “É possível, mas não existem elementos para afirmar isso”, disse o ministro palaciano. “Agora, que foi bom para o Lula, foi”, completou.

Anúncios