Enviado por Gaudêncio Torquato – 
1.6.2014
 | 18h27m

POLÍTICA

Campanha fecha ciclo de 64

 

Gaudêncio Torquato

Mentiras e versões grassam por todas as partes. A campanha eleitoral só pode chegar às ruas dia 6 de julho. Mas já começou. Basta ver a agenda dos três principais candidatos, onde o destaque é a oratória de palanque, com acusações recíprocas, defesas e promessas.

Luiz Inácio poderá voltar e tomar o lugar de Dilma Rousseff como candidato do PT? Ora, ele nega peremptoriamente. A propaganda governamental – governo federal e de governos estaduais – é proibida de veicular mensagens de cunho eleitoreiro. Mas o que se vê são mensagens de feitos de governantes versando sobre temas de impacto em evidente sinalização de propaganda eleitoral.

Sob a exuberante arquitetura de 12 arenas locupletadas, a partir do dia 12 de junho, que abrigarão o maior espetáculo esportivo do planeta, a Copa do Mundo, a ser vista por 4,5 bilhões de pessoas em 212 países, ares de medo e interrogação se espraiam pelo território, a indicar um dos pleitos mais contundentes de nossa história política.

Por que a eleição deste ano assume posição de destaque na série histórica das disputas? Pelo fato de o Brasil se aproximar, velozmente, de uma encruzilhada, tendo de decidir se continuará a seguir em frente, à direita ou à esquerda.

As direções, neste caso, dizem menos respeito às linhas do arco ideológico e mais às de busca de alternativas, do tipo: redefinição de estratégias de desenvolvimento, correção e ajustes macroeconômicos, implantação de reformas (política, fiscal-tributária, previdenciária, educacional), adequação do papel e do tamanho do Estado a uma nova ordem social e política e ações em áreas sensíveis como direitos humanos, comunicação, sustentabilidade, infraestrutura, servidores públicos etc.

A par das mudanças clamadas pela sociedade e confirmadas por pesquisas, que se imporão a qualquer vitorioso (a) no pleito, trata-se, ainda, de abrir horizontes na radiografia hegemônica do poder, dando chances a novos atores, avançando sobre a desgastada polarização entre PT e PSDB e oxigenando os pulmões da velha política.

A campanha deste ano agrega forte diferencial pelo fato de reunir três perfis competitivos, representando grupos partidários de expressão, cada qual, a seu modo, procurando interpretar as demandas de uma comunidade mais exigente, ativa e participativa.

Nunca se ouviu tanto o eco das ruas como neste momento. O clima continua sob os efeitos (hoje mais débeis) da torrente escandalosa que pegou os costados do PT. A Ação Penal 470 deixa ver nuvens sombrias sobre o partido que está no comando poder e se apresentava como a vestal da República.

Ainda a pontuar diferenças, o pleito contará, pela primeira vez, com uma classe média majoritária, que perfaz 53% da população, mesmo segmentada em três compartimentos (A, B e C). Por último, o destaque de que a contenda fecha o ciclo de 1964.

Expliquemos: os pesados anos de chumbo redefiniram os rumos da política, fazendo nascer partidos, formando grupos, multiplicando alas e dando margem à diástole que propiciou a abertura dos horizontes democráticos. Os atores alçaram ao patamar contemporâneo sob o empuxo de um discurso que teve como eixo o combate ao passado sombrio.

Fernando Henrique, José Serra, Luiz Inácio e Dilma, entre outros, fazem a ponte entre o ontem e o hoje, eles que padeceram sob o tacão da ditadura militar. Vozes do passado ainda se ouvem. Mas é forte o clamor para que o país descortine uma nova era, dando vez ao grupo pós-64.

Por isso mesmo, a batalha se cerca de um inusitado preparo com o uso antecipado de ferramentas, incluindo intensa propaganda política, manipulação das massas, alianças políticas sem eira nem beira, lógica/ilógica dos discursos.

O medo torna-se arma de guerra. É um recurso extremo, mas de efeito devastador. Como pregava Hitler: “É apenas na aplicação permanentemente uniforme da violência que consiste a primeira das condições de sucesso”. Implicava a “violação psíquica das massas pela propaganda emotiva baseada no medo”.

Serge Tchakhotine, em Mistificação das Massas pela Propaganda Política, explica que Hitler usou a estratégia do medo para ativar os dois primeiros instintos humanos: o impulso combativo (o medo e a luta pela sobrevivência – contra incertezas, obstáculos, inimigos etc) e o impulso nutritivo (alimento, bolso com dinheiro para suprir o estômago). Para ganhar as massas, ensinava Goebbels, “é preciso contar com sua fraqueza e bestialidade, baixar o nível intelectual da propaganda, simplificar as ideias complicadas”.

Mas os tempos são outros. O dito hitlerista “quanto maior a mentira, maior a chance de todos nela acreditarem” não engabela como no passado, apesar da possibilidade de ainda enrolar incautos e incultos. Entre nós, a estratégia do medo bate nos fundões sob os braços do assistencialismo.

Ocorre que a estratégia do terror foi banalizada. Já não finca raízes profundas. A população, mesmo a das margens, parece vacinada contra a artilharia psicológica adotada em guerras eleitorais. Será difícil convencer comunidades que um programa como Bolsa-Família, por exemplo, será extinto. Tornou-se política de Estado. E é pouco provável que temas abstratos – privatização da Petrobras, Banco do Brasil e Caixa Econômica – sejam palatáveis aos sentidos das massas.

Os governantes, é oportuno lembrar, têm a vantagem do “poder da caneta” – liberar verbas, aprovar projetos, nomear pessoas – para dar crédito às promessas. Mesmo assim, a credibilidade do discurso palanqueiro perde força.

Infere-se, portanto, que as firulas nos campos eleitorais não derrubam jogadores, como certos “técnicos” do marketing eleitoral imaginam. A esperança, essa sim, é o xis da questão. O Brasil esperançoso é o do crescimento, da harmonia, da segurança, do trabalho.

Que candidato veste melhor esse figurino? Quem fará as mudanças que todos clamam? Abraham Lincoln dizia que “demagogia é a capacidade de vestir ideias menores com as palavras maiores”. Quem tem coragem de arriscar?

 

Gaudêncio Torquato, jornalista, professor titular da USP, consultor político e de comunicação. Twitter: @gaudtorquato

 

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