CUT, Força Sindical e UGT justificam falta de diálogo da presidente com o setor para liberar seus dirigentes e sindicalizados a apoiar os adversários da reeleição

A presidente Dilma Rousseff aprovou mais leis em favor dos sindicatos e de seus seis milhões de filiados do que o antecessor Luiz Inácio Lula da Silva, mas a falta de diálogo da atual ocupante do cargo com o setor provocou uma debandada por parte das centrais sindicais, que, rachadas, liberaram seus dirigentes para negociar apoio a Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB), principais adversários da petista nas eleições presidenciais deste ano.


Fotos Públicas
Aécio Neves participa do encontro da Força Sindical no dia do Trabalho

O Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap) repassou ao iG um levantamento com todas as leis aprovadas por Lula e Dilma em favor das reivindicações sindicais. A atual presidente aprovou 12 leis em pouco menos de quatro anos, enquanto Lula sancionou oito em seus dois mandatos. Dentre as normas assinadas pelo ex-presidente está a ampliação da licença-maternidade de quatro para seis meses [para empresas cadastradas], a criação do piso salarial dos professores e a legalização das centrais sindicais.

Leia também: Defendido por Aécio, Bolsa Família já foi taxado de Bolsa Esmola 

Já algumas medidas da atual presidente incluem a ampliação do aviso prévio de 30 para até 90 dias, a obrigatoriedade de aumentar o salário mínimo acima da inflação, a inclusão previdenciária de trabalhadores de baixa renda e a extensão aos empregados domésticos dos mesmos direitos concedidos aos trabalhadores urbanos.

Apesar de a presidente cumprir a promessa eleitoral de continuar aprovando leis em favor do setor, o núcleo duro das centrais rachou e agora seus dirigentes negociam individualmente seu apoio na campanha presidencial, ao contrário do que aconteceu nas eleições de 2010, quando todas as centrais fecharam com Dilma.

Mais: Guerra virtual baixa o nível da política a quatro meses da eleição

O primeiro a abandonar o barco foi a Força Sindical, cujo presidente, Miguel Torres, e seu principal líder, Paulinho da Força, já declararam apoio a Aécio, que os apoiaram na fundação do partido Solidariedade. “Há quatro anos todas as centrais apoiaram Dilma. Este ano, todas têm críticas a ela”, afirmou Torres ao iG. “Mesmo assim decidimos liberar o voto aos filiados e dirigentes.”

Torres justifica a mudança de lado ao assegurar que até as medidas em favor dos trabalhadores foram tomadas sem consultar as centrais. “Ela dispensou os trabalhadores de negociações importantes e nos deixou isolados.” Conselheiro político do Diap, Antônio Augusto de Queiroz explica que Dilma delegou a interlocução com os sindicalistas ao Ministério do Trabalho e à Secretaria Geral da Presidência. “Antes as centrais eram recebidas diretamente por Lula pelo menos três vezes ao ano.”


Agência Senado/Presidência/Divulgação
Os presidenciáveis Aécio Neves, Dilma Rousseff e Eduardo Campos

Presidente da União Geral dos Trabalhadores (UGT), Ricardo Patah declara voto pessoal em Dilma, mas também liberou sua diretoria para votar em quem bem entender. “Eu apoio a reeleição, mas tenho dois diretores da UGT que vão de Campos e outros dois que preferem o Aécio. Cada dirigente pode subir em um palanque.” Ele admite a dificuldade de diálogo com a presidente, mas defende seu voto no PT ao justificar o projeto do partido “em favor do pobre”.

Essa é a mesma razão defendida pelo presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT) em São Paulo, Adi dos Santos. Mesmo favorável à reeleição, ele não esconde a insatisfação de seus colegas. “As dissidências fazem parte da democracia. Não vamos impor uma candidatura. Temos na CUT dirigentes sindicais com opiniões diferentes que, por terem reivindicações próprias, podem mudar de lado e apoiar um projeto diferente.”

Santos confirma a distância da presidente, mas acha que ela cumpriu a promessa de dar continuidade aos projetos do governo anterior. “Achamos que ela deveria ter uma relação mais próxima com as centrais e movimento sociais, e não teve. Mas isso não significa que eu vou romper porque, para mim, o projeto de inclusão social está acima de qualquer reivindicação setorial.”

Será? Para governar sem Sarney, ‘nova política’ de Campos terá de unir PT e PSDB

O conselheiro político do Diap lembra que o assédio dos candidatos aos dirigentes das centrais busca dar a suas candidaturas um “verniz trabalhista”. Para Queiroz, os sindicalistas podem acabar voltando para de baixo do guarda-chuva governamental quando Lula entrar de vez na campanha. “É fato que vai haver alguma concessão. O programa do PT já prevê reajuste aos servidores públicos, que podem acabar aderindo.”

Para o presidente da Força, nem o Lula será capaz de reconciliar o setor com a presidente. “Não há mais tempo para isso. Nem ele convence o movimento sindical a votar em peso na Dilma.”