Aloysio Nunes: o guerrilheiro que tem a missão de enfrentar Lula
Por Vasconcelo Quadros | 05/07/2014 13:00 – Atualizada às 05/07/2014 13:10
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Chapa “café com leite” é tentativa de Aécio Neves de barrar influência de Lula no principal reduto do PSDB: São Paulo

Futura Press
Tese é que senador, além do controle da maioria das prefeituras paulistas, exerceria influência indireta no fortalecimento da candidatura tucana nos Estados do Sul
A chapa “café com leite”, reeditada um século depois do período em que paulistas e mineiros se revezavam no poder, é uma tentativa do presidenciável Aécio Neves de combater a influência do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no principal reduto do PSDB com um vice bom de bico e de briga.

O senador Aloysio Nunes Ferreira, segundo assessores próximos ao presidenciável, está escalado para rebater as críticas do PT e, se necessário, atacar Lula, a principal estrela do partido no teatro de operações que se estabelecerá em São Paulo, avaliado como o centro decisivo para as eleições deste ano.

Leia: Escolha de Aloysio Nunes para vice reforça chapa do PSDB em SP, diz Aécio

A estratégia tucana vai explorar a sinergia programática e ideológica do PSDB, ajudará a manter o controle sobre São Paulo por meio da chapa que reúne o governador Geraldo Alckmin e o ex-ministro José Serra – candidatos respectivamente à reeleição e ao Senado – e deixará Aécio livre para fazer o confronto com a presidente Dilma Rousseff no segundo maior reduto eleitoral do país, que é Minas Gerais, berço natural dos dois.

“O Aloysio terá uma atuação nacional, mas com foco em São Paulo”, afirma o coordenador geral da campanha presidencial tucana, o senador José Agripino (DEM-RN).

Nas contas de Aécio, o PSDB terá dificuldades no Nordeste e, para que as oposições percam por menos, contará com o candidato do PSB, Eduardo Campos – o único entre os presidenciáveis com potencial de desafiar a popularidade de Lula na região. Ambos são pernambucanos, mas entre os nordestinos pesaria o capital político do avô do ex-governador, Miguel Arraes que, embora sempre ao lado de Lula, deixou seu espólio político para o neto.

Breque: Aécio Neves busca receita para controlar avanço de Eduardo Campos

A chapa puro sangue nacional está conectada ao acordão firmado em São Paulo por Alckmin, que reuniu 15 partidos na coligação e que, além de unir as oposições, pesou na escolha de Aloysio Nunes. O argumento é que o senador, além do controle da maioria das prefeituras, exerceria influência indireta no fortalecimento da candidatura tucana nos Estados do Sul.

Aos 69 anos, 49 deles na política, Aloysio Nunes está no auge de uma carreira política bem sucedida. Advogado de formação, foi deputado estadual, federal, ministro da Justiça, secretário de Estado (Negócios Metropolitanos e Casa Civil) e vice-governador. Nessas duas últimas funções, construiu uma relação perene com a imensa maioria das prefeituras paulistas que migraram do PMDB para o PSDB.

A única derrota foi em 1992, quando era vice-governador na gestão de Luiz Antônio Fleury Filho (por ironia hoje coordenador da campanha de Paulo Skaf, do PMDB) e disputou a prefeitura paulistana, conquistada à época pelo hoje deputado Paulo Maluf.

Aloysio, um guerrilheiro

A presença de Aloysio Nunes enverniza com uma tonalidade vermelha a candidatura de Aécio, tirando da presidente Dilma o charme de única candidata presidencial a ter recorrido às armas contra a ditadura. Dilma, como se sabe, foi presa e barbaramente torturada depois de ter sido apanhada com o grupo que planejava o sequestro do ex-ministro Delfim Neto.

Agência Brasil
Motorista e parceiro de Marighella, Aloysio Nunes era o guerrilheiro Mateus da ANL
Filiado ao PCB em 1963, Aloysio tomou o caminho das armas em 1968 ao trocar o partido pela mais radical das organizações da esquerda urbana, a Ação Libertadora Nacional (ALN), criada pelo ex-deputado Carlos Marighella, de quem foi guarda-costas, motorista, parceiro nas ações armadas e o emissário enviado mais tarde à França para organizar apoio internacional à fracassada guerrilha. Na ALN, Aloysio era Mateus.

E esse militante Mateus que vai enfrentar Lula no embate democrático tem no currículo ações cinematográficas, como o assalto ao trem pagador da antiga Estrada de Ferro Santos-Jundiaí, realizado no litoral, e ao carro pagador da Massey Ferguson, na Praça Benedito Calixto, em Pinheiros, zona sul da capital, ambos planejados e executados sem que fosse necessário disparar um tiro sequer.

“Foi uma expropriação impecável”, disse anos depois, em entrevista ao Jornal do Brasil, numa das raras ocasiões em que falou sobre o assunto. Aloysio é um dos poucos militantes de peso que entrou na democracia sem mágoas nem traumas do passado, mesmo tendo perdido companheiros como Marighella e Joaquim Câmara Ferreira, o Toledo, ambos assassinados pela ditadura. Ao contrário de Dilma, Aloysio escapou da repressão graças a Marighella, que providenciou documentos falsos para que deixasse o País já com a polícia em seu encalço.

De fino trato

“Estamos junto na política há muito tempo e nunca ouvi ele falar disso. O passado (guerrilheiro) nem aparece no perfil dele. Ele olha para o futuro. Acho que isso fez dele o político que é: durão no enfrentamento, mas com doçura no trato”, diz a deputada tucana Mara Gabrilli, que chegou a ser cogitada como candidata a vice de Aécio. Ela reconhece que Nunes Ferreira foi a melhor escolha do partido.

A deputada diz que Aloysio Nunes é o quadro tucano ideal para enfrentar Lula e o PT em São Paulo. “Ele tem porte, conhecimento, clareza de ideias e sabe como o PT vem trabalhando. Deixará o Aécio livre para fazer política no resto do País”, afirma Mara.

Oficialmente, o comando da campanha tucana não admite o papel estratégico reservado a Aloysio Nunes. “Não vamos destacar um terceiro zagueiro para marcar Lula. Alckmin poderá fazer esse papel”, desconversa Agripino. “O Lula não é candidato. Há outras pessoas, como o presidente Fernando Henrique e José Serra, que podem fazer esse confronto. Mas se ele quiser vir, que venha”, desafia o deputado Ricardo Trípoli.

Agência Senado
Nome de Aloysio Nunes sempre foi o mais cotado para a vaga de vice de Aécio Neves
Em maio, a cordialidade do senador não resistiu à provocação do blogueiro Rodrigo Grossi, conhecido como Rodrigo Pilha, ligado ao PT. Grossi interpelou Nunes no corredor e fez perguntas capciosas sobre o suposto envolvimento da cúpula tucana com o suposto cartel Alstom-Siemens. “Vai para a pqp, vagabundo!”, reagiu, quase partindo para cima do rapaz, que acabou detido pela segurança do Senado. Grossi distribuiu o vídeo nas redes sociais e abriu uma ação na justiça acusando Aloysio Nunes de violência e violação de direito constitucional.

O episódio não teve qualquer peso na decisão de Aécio. Aloysio, conforme revelou o iG no início de abril, sempre foi o nome mais cotado para a vaga de vice. Assim que foi confirmado na convenção, o senador reconheceu que pisara na casca de banana jogada pelo ativista e deu o episódio por encerrado.

Mais do mesmo?

Embora no PSDB sobrem elogios sobre a performance do senador, longe do partido a opção é vista como “mais do mesmo” e sem influência no desempenho de Aécio. “Ele acrescenta muito pouco e, no fundo, reflete desespero e deficiência da oposição para formar uma chapa forte. Ele é um crítico agudo do governo em Brasília, mas não tem capilaridade”, avalia o cientista político Leonardo Barreto, da Universidade de Brasília (UnB). Segundo ele, Aécio deveria ter escolhido um vice de outra região e de outro partido da coligação. “O Aloysio não tem estatura para brigar com Lula.”

Segundo o Duarte Nogueira, presidente estadual do PSDB, Aloysio tem boa relação com parlamentares, prefeitos e experiência para melhorar o desempenho de Aécio no Estado. “Ele terá um papel especial, sem precisar confrontar com Lula”, afirma Nogueira.

A cúpula tucana diz que a campanha será em cima de programa, sem baixaria. O cientista político Alexandre Gouveia, da UnB, ressalva, no entanto, que embora o eleitor esteja mais independente do que nunca nesta eleição, a campanha deve começar em elevado belicismo. “Acho que o início será tenso, cheio de denúncias, acusações e agressividade recíproca. Depois, o marketing ditará as regras”, diz ele.

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