Eleição presidencial é a mais incerta desde 1989, dizem analistas de mercado

Por Vitor Sorano – iG São Paulo | 30/07/2014 06:00

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Chances de Dilma vencer variam de 30% a 60%, segundo diferentes projeções; indefinição afeta investimentos

Especialistas em fazer projeções, os analistas de mercado têm encontrado dificuldade para apontar quem vencerá a disputa presidencial de 2014. “Esta é a eleição mais incerta desde 1989”, avalia Rafael Cortez, economista da Tendências Consultoria, que pertence ao economista Maílson da Nóbrega, ministro da Fazenda no governo José Sarney.

Com base na popularidade da presidente Dilma Rousseff (PT), a Tendências vê atualmente 55% de chances da petista se reeleger e continuar no Palácio do Planalto. O número está ligeiramente abaixo dos 60% do início de maio.

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O recuo na popularidade da presidente desde os protestos do ano passado dificultou a previsão eleitoral para os analistas. Tanto em 2006  quanto em 2010, aponta Cortez, o então presidente Lula (PT) ostentava índices maiores de aprovação, que tornaram mais fácil prever os resultados.

Do mesmo modo, também foi mais fácil prever o resultado nas três eleições anteriores, confirmadas mais tarde pelas amplas margens de vantagem dos vencedores, segundo João Augusto de Castro Neves, diretor para América Latina do Eurasia Group.

Veja momentos da campanha presidencial 2014:

Presidente Dilma, candidato à releição pelo PT
Em 1994 e 1998, Fernando Henrique Cardoso venceu no primeiro turno. Já em 2002, o Lula abriu 22 pontos  frente a José Serra (PSDB), levando a disputa na segunda etapa da eleição. Essa ampla margem não deve se repetir em 2014, de acordo com o diretor da Eurasia Group.

 “Nós achamos que a eleição vai ser mais competitiva do que as últimas. Quem ganhar terá uma liderança menor”, diz Castro Neves ao iG.

Com base num modelo que analisa os resultados de 200 eleições em quase 20 países, a Eurasia avalia que Dilma tem 60% de chances de vencer neste ano.  O percentual está abaixo dos 70% registrados até a semana passada, mas em geral, quem está no cargo continua nele, segundo o analista.

“A grande conclusão desta pesquisa é: os presidentes que concorrem à releição são fortes. Na hora H, a força do governo para angariar apoio é muito forte”, constata Castro Neves.

Chance de Aécio está no Sul

Por outro lado, o cenário também traz uma chance inédita de êxito para a oposição, avalia a consultoria Nomura. Em estudo divulgado na semana passada, o grupo japonês estimou que Aécio Neves (PSDB) conta com 70% de chances de vitória.

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O cenário leva em conta a hipótese de que o tucano consiga conquistar a região Sul, explica Tony Volpon, analista do Nomura, que vê 2014 como o pleito mais competitivo desde o de 2002.

“O meu argumento é que  o Aécio Neves ainda não virou [a seu favor] o Sul porque ainda não é conhecido lá. E a vantagem de Aécio no Sudeste [49% contra 34% de Dilma no 2º, de acordo com o Datafolha de 15 e 16 de julho] deve se repetir no Sul [onde o tucano tem 37% ante 41% da petista]”, afirma Volpon. “Se nas próximas semanas eu constatar que o Sul não está virando, a minha hipótese [de vitória de Aécio] está errada”, reconhece Volpon.

Cortez, da Tendências, também avalia que o PSDB tem uma oportunidade única para tirar o PT do Planalto e voltar ao poder central depois de 12 anos. “Se a oposição não ganhar em 2014, fará jus ao título de grupo político fraco.”

Indefinição paralisa investimentos

Tendo os investidores como seus clientes, consultorias tentam adivinhar o resultado da eleição brasileira para que estes donos de capital possam tomar suas decisões de investimento. A incerteza sobre quem vai ganhar complica esse trabalho.

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“Toda possível mudança na politica econômica impacta o mercado pelo efeito expectativa. Então, estamos em um processo de avaliação continua das diferentes posições dos candidatos mais competitivos”, pontua Volpon, da Nomura.

Professor e diretor do MBA da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), Tharcisio Bierrenbach de Souza Santos  ressalta que a incerteza decorre não só do desconhecimento do governante do País em 2015. Mas que o ocupante do cargo mais importante do Brasil, independentemente de quem seja, terá de enfrentar uma situação adversa.

“Eu acho que é a situação difícil da economia brasileira que afeta”, pondera Santos. “[Isso] e o fato de que todo mundo está cansado de saber que cada candidato tem a sua receita para resolver [a situação]”, prossegue o prossegue. “Eu imagino que a soma dessas coisas leva a um grau de incerteza muito grande. Será que o candidato A resolve [os problemas]? O B resolve? O C resolve?”, completa.