Fábio Campos02/11/2014

A oposição é para se opor

Oposição existe para se contrapor. Sua função é fiscalizar, denunciar, desmascarar e votar contra os desejos do Governo. Oposição é para cobrar dos governantes tudo aquilo o que estes prometeram na campanha eleitoral.

notícia 0 comentários

Fábio Campos fabio

Compartilhar

Derrotado nas eleições presidenciais após uma campanha onde o petismo pintou o partido como a encarnação do diabo na terra, o PSDB veio a público dizer que vai fazer oposição ao PT. Alvíssaras. No Brasil da política adesista, o óbvio precisa ser afirmado. No Ceará, o senador Eunício Oliveira, que perdeu a disputa para o Governo, também resolveu colocar o seu PMDB no lugar que o povo já havia designado: na oposição. Que assim seja.

O adesismo costuma buscar termos que concedam um componente nobre ao seu movimento oportunista. Desconfiem quando assistirem a um político usando as seguintes bengalas para a sua atuação: “oposição crítica” e “oposição propositiva”. É conversa para adormecer a manada. Sua intenção é simplesmente aderir ao Governo de plantão mesmo que o eleitor tenha colocado o partido do dito cujo na oposição.
Vejam com olhos da desconfiança a conversa de parlamentares que se declaram “independentes”. A regra geral (com as honradas e equivocadas exceções) é a seguinte: quem se declara independente é por que está em busca de vender para o Governo o seu precioso voto no parlamento. A declaração de independência é como um grito de leilão. “Quem dá mais? Quem dá mais?”. Mas, só há um comprador disponível. O Governo.
Desconfiem quando assistirem a um governante sugerir termos como “conciliação” e “diálogo” para os que foram derrotados nas urnas. A ideia é somente cooptar. O objetivo é esfacelar as forças de oposição e manter o parlamento sob absoluto controle. É clássico: os governantes brasileiros odeiam a oposição, mas as democracias não podem jamais prescindir delas. Fiquemos com a democracia.
A oposição existe para se opor. É a gênese de sua existência. A oposição é aquela que se opõe e estabelece nesse trabalho cotidiano uma opção segura e equilibrada para que se evidencie a sagrada alternância de poder. A oposição é a alternativa de poder. Conciliação e diálogo entre Governo e oposição só se fazem necessários em situações peculiares. Nas guerras, por exemplo, ou em situação de extrema crise.
Oposição existe para se contrapor. Sua função é fiscalizar, denunciar, desmascarar e votar contra os desejos do Governo. Oposição é para cobrar dos governantes tudo aquilo o que estes prometeram na campanha eleitoral. Promessas que convenceram a maioria que derrotou a… oposição. É um pressuposto da velha e boa democracia.
ENTRE POBRES E RICOS, AS FALÁCIAS
Tão cansativo quanto o lengalenga de buscar culpados regionais pela derrota dos tucanos é o lengalenga que quer negar o peso decisivo do voto dos mais pobres a favor de Dilma Rousseff (PT). Antes, uma obviedade: um voto é um voto. Não importa se o sujeito tem o cofre abarrotado de ouro ou se possui apenas um reles cartão do Bolsa Família. Só as democracias são assim.
No ramerrão que se seguiu à apuração das urnas, lembrei-me de um fato. Após as eleições de 1989, vencida por Collor, a esquerda resmungava ao ver o mapa nacional de votação. Collor venceu por causa do que na época chamávamos de grotões. No Sudeste, Lula venceu Collor por 54 a 46. No Nordeste, Collor venceu por 55 a 45. O Nordeste pobre passou a ser apontado por muitos, incluindo iluminados da esquerda, como responsável por jogar o Brasil no atraso.
Durante as décadas de 80 e 90, o então PFL, ex-PDS e hoje DEM, mantinha a supremacia na política nordestina. A esquerda era muito diminuta por essas bandas, apesar de um ou outro espasmo eleitoral. O PT, por exemplo, tinha espaços nas páginas políticas muito maiores do que sua pequena expressão popular. E qual era o discurso de então oriundo de nossa gloriosa esquerda?
Ora, apontava-se que os pobres eram massa de manobra dos políticos. Dizia-se que a seca era a malvada indústria da dominação. Dizia-se que os pobres eram mantidos pobres por método para deixá-los sempre dependentes de políticas públicas de cunho assistencialista. Acusava-se que a ignorância escolar era a chave da manutenção do poder vigente. A esquerda estava certa?
Hoje, a constatação de que os votos dos mais pobres e menos escolarizados (mas não somente os deles) foram determinantes para a manutenção do poder vigente é apontado como, na menos agressiva das hipóteses, um comportamento discriminatório.
Em sentido oposto, aponta-se como algo condenável o fato dos eleitores mais escolarizados e com renda maior terem majoritariamente votado em Aécio Neves. Curiosamente, esse eleitor optou em maior escala por Lula em 1989 contra Collor. Havia um problema nisso?
ÍNDICE DE EMPREGOS E “BOLSISTAS”

Durante a campanha presidencial, uma questão permaneceu sem a devida resposta. Como o Governo brasileiro afirma que o País mantém uma taxa de desemprego tão baixa e, ao mesmo, tempo, garante que há 50 milhões de beneficiários do Bolsa Família? Parece contraditório. E é.
Em um artigo, o economista Ricardo Amorim produziu uma boa explicação. “Pelos dados oficiais do IBGE, de cada 100 brasileiros em idade de trabalho, 53 trabalham, três procuram emprego e não encontram e 44 não trabalham, nem procuram emprego. Segundo a Pesquisa Mensal de Emprego (PME), 5% estão desempregados nas 12 maiores regiões metropolitanas do país”.
Continua: “Só é considerado desempregado quem procura emprego e não encontra (3%) sobre o total dos que procuraram emprego (56%). Quem não procura (44%), tecnicamente não está desempregado. Esta não é uma manipulação estatística. O mesmo conceito vale no mundo todo. Porém, se a estatística não é manipulada, sua interpretação é.
Mais: “Baseado na baixa taxa de desemprego, o governo sugere que quase todos os brasileiros têm emprego. Na realidade, quase metade (47%) não tem e muitos estão subempregados – sem carteira assinada ou trabalhando menos do que gostariam. Basta uma hora semanal de trabalho assalariado para ser considerado empregado”. Mais detalhes aqui: http://ricamconsultoria.com.br/
news/artigos/desemprego

PASSAGEM COMPRADA

Do governador Cid Gomes: “O PMDB é um mal terrível, que tem que ser combatido organizadamente, racionalmente e inteligentemente. É um ajuntamento de secções regionais que não tem nenhuma identidade, mas um interesse em comum: chantagear governos”. Está aí a maior prova da determinação de Cid de ir embora para os Estados Unidos e não aceitar convites para ocupar um Ministério. O Governo precisa do apoio do PMDB e não vai abrir mão de manter a sigla na base aliada. A fala de confronto do governador com o PMDB não é adequada a alguém que pode aceitar ir para a Esplanada dos Ministérios. Perguntado se não era importante o papel do PMDB em controlar o PT, Cid disse o seguinte: “É, mas o PMDB também precisa ser controlado”.