Fábio Campos09/11/2014

Camilo: técnica ou empirismo?

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Desde a apuração das urnas, o futuro governador do Ceará não tem se omitido em falar acerca de suas intenções. Até aqui, superficialidades e a promessa de um programa de Governo até o final do ano. O fato é o seguinte: em pouco mais de 50 dias, o engenheiro agrônomo Camilo Santana (PT) terá que substituir as intenções pela prática. Mas, qual prática? Abaixo da linha do Equador, nunca se sabe. Como não há nada escrito, temos que nos guiar pelo que foi dito e também pelo que não foi dito.

O diabo ou o divino moram nos recônditos daquilo que não foi dito. Um ponto (do que não foi dito) chama a atenção em especial. A partir de uma pergunta chega-se à questão: na hora de definir uma grande obra pública ou uma grande compra governamental, como se dará o processo de decisão do novo governador?
Camilo Santana é um devoto da técnica ou do empirismo? A técnica é o conjunto de regras, normas ou protocolos, baseados em conceitos científicos, que se utiliza como meio para se alcançar uma meta. O empirismo se apóia em experiências vividas, na observação de coisas, e não em teorias e métodos científicos.
Vamos a alguns exemplos. Na hora de se decidir pela construção de um grande e caro aquário, certamente é necessário levar em consideração a técnica. É viável? Tem sentido como equipamento público? Qual a melhor localização? Que impacto urbano e econômico vai gerar? Como será seu modelo de gestão e quais serão as fontes de financiamento para mantê-lo? Depois de respondidas essas e outras muitas questões, aí sim, toma-se a decisão.
O mesmo procedimento, que costumam chamar por aí de “estudo de viabilidade”, vale para todos os outros grandes empreendimentos públicos: centro de eventos, hospitais de grande porte, linhas de metrô, VLT e tantos outros. A técnica é sócia da racionalidade e economiza o suado dinheiro do contribuinte.
A técnica é a melhor conselheira na hora de se decidir, por exemplo, pela compra do veículo para o patrulhamento policial urbano. Se o governante usar o empirismo, corre o risco de comprar um carro caro e inadequado. Uma Hilux diesel com câmbio automático e tração nas quatro rodas, por exemplo.
Nesse mesmo caso, São Paulo usou a técnica para comprar uma viatura da mesma marca. Tanto que o resultado foi o seguinte: por exigência operacional, a Hilux é movida a gasolina, o câmbio é mecânico e a tração é simples. Além da adequação às necessidades do serviço de policiamento urbano, a diferença entre as opções de lá e de cá R$ 50 mil por carro.
O que leva um administrador público a adotar a primeira opção é, na melhor das hipóteses, o empirismo. O que leva à opção paulista é a o uso da técnica e da racionalidade como método de decisão. Ou seja, a técnica sai mais barato e é a melhor vacina contra desastres administrativos. Qualquer empresário sabe muito bem disso.
A torcida é que Camilo, mestre em desenvolvimento e meio ambiente pela UFC, coroe a técnica como base para a sua tomada de decisão. A expectativa é que o futuro governador não seja do tipo que toma decisões sob o império das impressões embutidas em sua cachola.
As decisões na gestão pública baseadas no empirismo podem, vez ou outra, alcançar bons resultados. Mas, são grandes as chances do oposto se concretizar. Confesso-me incomodado com decisões como a que levaram à construção da ponte estaiada. Pode até ser necessária, mas que estudos técnicos na área de transporte justificaram a decisão de construir? Se eles existem, tomara que o futuro governador os traga à tona.
SINALIZAÇÕES E NADA MAIS

Camilo Santana foi à Assembleia Legislativa na última quinta-feira. Em sua fala de meia hora, deu destaque às suas intenções para a área de segurança pública. “Como governador, eu vou precisar muito da Assembleia, porque as mudanças que eu pretendo fazer na segurança pública precisam ser aprovadas (pela Casa)”.
Falando ainda como deputado estadual, o futuro governador declarou que pretende criar um “conselho” para área de segurança pública. Em oportunidades anteriores, Camilo sugeriu que terá como referência o “Pacto pela Vida”, o programa que tirou Pernambuco do topo do ranking nacional dos homicídios. Uma das bases desse projeto foi um fórum que gerou o plano final.
Ao citar a criação do conselho e declarar que já pediu audiências com o Judiciário, o Ministério Público e a OAB, Camilo começa a dar os primeiros passos para efetivar o projeto que deverá se chamar “Abraça

Ceará”. É um bom começo. Na área de segurança pública, o melhor caminho é copiar o que já deu certo.
Uma das bases do Pacto pela Vida foi o envolvimento do então governador Eduardo Campos. Ele não terceirizou responsabilidades. O projeto era coordenado a partir do gabinete do governador. Uma vez por mês Campos dirigia a reunião de direção do PPV pessoalmente. Camilo Santana sinaliza uma rota similar. Apenas sinaliza.
OPÇÃO ERRADA

O PT do Ceará ainda rumina o mau resultado obtido na disputa pelas vagas de deputado estadual. O partido tinha cinco parlamentares na Assembleia e saiu das urnas com apenas dois. Com o resultado, o petismo passou a ter uma bancada similar a que tinha na metade da década de 80. Somados os votos recebidos pelos candidatos do PT e pela legenda, o partido obteve mais de 400 mil votos. É uma votação suficiente para eleger quatro deputados estaduais. Teria conseguido isso se a opção fosse por não fazer coligação. Ou seja, com a coligação, os eleitores que optaram pelos candidatos petistas acabaram elegendo políticos de outras siglas. É por essas e por outras que o fim das coligações está na mira de todos que defendem a reforma política.
CONVERGÊNCIA
Os entrevistados no Jogo Político (TV O POVO) da última segunda-feira foram o deputado estadual João Jaime Marinho (DEM) e o futuro deputado estadual Elmano de Freitas (PT). Para quem esperava um duro confronto ideológico, deve ter ficado surpreso com a coincidência de posições entre os dois. Motivo: foi plena a convergência da dupla ao tratar de forma muito dura os oito anos do Governo de Cid Gomes. Acerca do futuro, embora tenha se declarado de oposição ao governo de Camilo Santana, João Jaime foi bastante comedido e até fez apostas positivas. Elmano não poupou também o prefeito Roberto Cláudio, a quem responsabiliza pela derrota de Santana na Capital.