Temer é a última bala de Dilma para evitar o fim antecipado do seu governo

10/04/2015 – 03h00

Ricardo Noblat

O vice-presidente da República, Michel Temer (PMDB-SP), está feliz. E não é para menos.

Passou os últimos quatro anos sem que a presidente Dilma Rousseff lhe desse a menor importância.

Em pelo menos duas ocasiões, teve que invocar sua condição de vice-presidente para exigir respeito de chefes da Casa Civil.

E de uma hora para a outra, como o seu colega de partido Eliseu Padilha (PMDB-RS) recusou convite de Dilma para assumir a articulação política do governo, sobrou para Temer assumir.

Assumiu porque Dilma lhe fez um apelo desesperado, e porque terá autonomia para exercer o cargo.

Temer é um político experiente. Presidiu a Câmara dos Deputados por três vezes. É também muito hábil e paciente. Sabe ser rápido quando preciso.

Em menos de 72 horas, por exemplo, conseguiu desmontar duas CPIs que não interessava ao governo que funcionassem – a destinada a investigar empréstimos concedidos pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, e a dos Fundos de Pensão.

Reuniu-se com os líderes de todos os partidos, arrancando deles apoio ao ajuste fiscal. Começou a discutir o preenchimento dos cargos do segundo e terceiro escalões do governo. E visitou Lula em São Paulo. Visitará também o ex-presidente Fernando Henrique.

– Delicadamente, Lula disse que talvez eu me saia bem – comentou Temer à saída do encontro.

Talvez?

Lula anda descrente de Dilma. Acusa-a de ser teimosa. E de só seguir seus conselhos quando não tem outro jeito.

No caso da escolha de Temer para a articulação política, de fato Dilma só a consumou porque não teve outro jeito.

– Quando a presidente me pediu (para assumir a articulação), ela disse ‘nós somos parceiros, você vai me ajudar a governar’ – contou o vice-presidente.

Não deve ter sido fácil para Dilma mostrar-se humilde. É tudo o que ela não é.

A parceria com Temer foi a jogada mais arriscada de Dilma até aqui. Por mais que se desgastasse, ela sempre poderia demitir Joaquim Levy, ministro da Fazenda, arranjando outro para substitui-lo.

Demitir Temer, ela não pode. Poderia tomar-lhe a articulação política. Mas a que preço?

Em 1990, no início do seu governo, o presidente Fernando Collor afirmou que só tinha uma bala para disparar contra a inflação alta – o plano econômico que congelou a poupança dos brasileiros.

Não deu certo. A corrupção no governo encarregou-se de derrubar Collor.

Temer como articulador político do governo significa a última bala disparada por Dilma na esperança de evitar o término precoce do seu governo.

A conferir se dará certo.

Michel Temer e Dilma Rousseff  (Foto: Divulgação)Michel Temer e Dilma Rousseff (Foto: Divulgação)