política

Crise de confiança

08/08/2015 – 01h05

A solução Temer reúne hoje a maioria do Congresso, mas não a maioria da sociedade. Também o PMDB, partido do vice-presidente, é alvo da Lava-Jato, responsável pelo strip-tease moral a que o PT está sendo submetido.

Quando começarem a vir à tona os peemedebistas que, em parceria, delinquiram com os petistas – e a delação premiada do lobista Fernando Baiano, representante do PMDB na rapina à Petrobras, está em vias de se realizar -, a casa cairá também para o PMDB. E a vida de Michel Temer terá dias de Dilma Roussef.

Há uma grande diferença entre Itamar Franco, que sucedeu Collor após o impeachment, e a de Temer: Itamar nada tinha a ver com o grupo de Collor. Era um político respeitado que, no antigo MDB, havia enfrentado a ditadura militar.

Collor queria alguém com aquele perfil. Por isso, antes de abordar Itamar, tentou Mário Covas, do PSDB. Covas, porém, era também candidato e achou um atrevimento que um nome sem qualquer projeção política lhe fizesse tal abordagem.

Itamar, não se sabe por que, aceitou, mas foi sempre um corpo estranho na campanha e ameaçou renunciar por duas vezes em seu curso. Quando da vitória, já estava incompatibilizado com Collor, que jamais escondeu o arrependimento de tê-lo escolhido.

Já Temer é bem diferente. Encarna o PMDB de corpo inteiro, sobretudo a parceria selada com o PT, que se desenvolve desde o primeiro mandato de Lula e se dissolve apenas no ocaso de Dilma. Não terá meios, como Itamar, de representar uma guinada política para o país, se vier a substituir a titular. Será uma acomodação.

No primeiro mandato de Dilma, Temer foi isolado no Palácio do Jaburu, alheio às decisões do governo, mas não ao loteamento de cargos, de que seu partido participava com intensa voracidade. O PMDB está presente em todas as áreas infectadas do aparelho estatal, ao lado do PT – Petrobras, Eletrobras, fundos de pensão, Correios etc. Temer não era, digamos assim, estranho ao processo.

Neste segundo mandato, assumiu perigoso protagonismo. Aceitou ser o articulador político de Dilma e tornou-se sócio da crise. Na hipótese de impeachment, cada vez mais presente, assumirá um país economicamente devastado, em que figura – não como pessoa física, mas como ente partidário – como parceiro do desastre. À medida em que a Lava-Jato for levando peemedebistas ao banco dos réus, o desgaste o atingirá, como atingiu Dilma.

Em política, pune-se não apenas a responsabilidade individual, mas também a partidária. A lei, por exemplo, cassa o mandato do governante cuja campanha apresente alguma irregularidade, ainda que dela não tenha sido informado. Jackson Lago, eleito governador do Maranhão, foi cassado, em 2009, sob esse argumento. Idem Cássio Cunha Lima, da Paraíba, em 2008.

Eduardo Azeredo, do PSDB, que nem chegou a vencer a eleição para governador de Minas, em 1998, responde ainda hoje por crime eleitoral, não praticado diretamente por ele. É o tal “mensalão tucano”, que nada tem a ver com o petista, nem na forma, nem no conteúdo, mas que também é crime.

A lei não quer saber se o candidato sabia ou não. Responsabiliza-o pelos crimes de campanha – e ponto. A mesma jurisprudência, se aplicada à chapa Dilma-Temer, inviabiliza a solução burocrática – posse do vice, após impeachment da titular -, que a maioria do Congresso concebe para a crise.

A campanha de ambos foi abastecida com propina do Petrolão, segundo o que se está apurando. Se Temer assumir, terá, além da escassez de autoridade moral, decorrente da circunstância de seu partido estar no banco dos réus, outro obstáculo, que Itamar não teve: enfrentar o partido destituído – no caso, o PT.

Collor não representava força alguma da sociedade. Seu partido, o PRN, era uma legenda de aluguel. Deposto o seu líder, o partido diluiu-se. No caso presente, o PT – em que já figuram defensores da solução Temer – voltará à oposição, munido das entidades da sociedade civil que aparelhou.

O partido não é bom de governança, mas é craque na oposição. Falhou como vidraça, mas é imbatível no estilingue.

Diante de tudo isso, conclui-se que a melhor solução não é exatamente a mais cômoda, como quer a maioria do Congresso: eleições diretas para presidente. Somente alguém munido de musculatura eleitoral – e que terá na campanha oportunidade de oferecer suas propostas – terá condições morais e políticas de fazer frente à crise econômica, que nunca é só econômica: é, antes e acima de tudo, política.

Ninguém investe nem um centavo se não confiar no governante. E a crise é, sobretudo, de confiança – o outro nome da política

Confiança (Foto: Shutterstock)Confiança (Foto: Shutterstock)