Planalto crê que superou risco de impeachment

Josias de Souza

15/11/2015 03:54

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Um dos operadores políticos de Dilma Rousseff escora-se num raciocínio do ex-governador mineiro Magalhães Pinto para definir a conjuntura. Política é como nuvem, dizia Magalhães. Você olha e ela está de um jeito. Olha de novo e ela já mudou. Na avaliação predominante no governo, disse o auxiliar da presidente, as nuvens carregadas do impeachment, visíveis até bem pouco, dissiparam-se.

Há dois meses, recorda o analista, Eduardo Cunha comportava-se como oposicionista, o Planalto colecionava derrotas no Legislativo e a oposição equipava-se para abrir o processo de cassação do mandato de Dilma antes do final do ano. Hoje, o presidente da Câmara joga com o governo, o Planalto começa a sair das cordas e a oposição deixa gradativamente de ser monotemática.

Além da própria Dilma, compartilham da tese de que as nuvens tornaram-se menos ameaçadoras, Lula e os ministros Jaques Wagner (Casa Civil) e Ricardo Berzoini (Articulação Política). Porém, eles reconhecem —em maior ou menor grau— que a estabilidade política do governo, por precária, está enganchada nos indicadores econômicos e na imprevisibilidade da Lava Jato.

Paradoxalmente, a margem de manobra do governo cresce na proporção direta da redução da influência de Dilma em seu próprio governo. Em privado, Lula intercala críticas a Dilma e auto-elogios. Afirma, por exemplo, que a coisa começou a melhorar depois que a afilhada política ouviu os seus conselhos e trocou na Casa Civil Aloizio Mercadante pelo “Galego”, como se refere a Jaques Wagner.

Deve-se a Wagner e ao próprio Lula a desobstrução do diálogo com Eduardo Cunha. Uma conquista de dois gumes, já que pressupõe o socorro das forças governistas ao vilão de mostruário da Lava Jato. Um passo em falso do PT no Conselho de Ética e Cunha pode voltar a torcer o braço de Dilma.

Para completar sua intervenção na Presidência da afilhada política, Lula agora pega em lanças pela troca de Joaquim Levy por Henrique Meirelles, no Ministério da Fazenda. Se ceder, Dilma sinalizará em definitivo que, não podendo elevar a própria estatura, não se importa de rebaixar o pé direito do seu gabinete. Se resistir, oferecerá matéria prima nova para que Lula continue exercendo seu papel predileto: o de inimigo cordial da ex-gerentona.