Juventude tem muito a desaprender com Lula

Josias de Souza

21/11/2015 04:28

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Nunca se ouviu falar de velho que tenha descoberto a eterna juventude. Mas a juventude do PT, reunida em Brasília, demonstrou que existem jovens que já nasceram com a eterna senilidade. Fraquejando-lhes as faculdades mentais, os moços do PT cultuaram a banda presidiária do partido. Em brados e faixas, José Dirceu, José Genoino, João Paulo Cunha, Delúbio Soares e João Vaccari Neto foram tratados como “guerreiros do povo brasileiro”.

Lula discursou para a rapaziada. Expôs um raciocínio que vem repetindo sempre que seus lábios encontram um microfone. Para ele, a imprensa pendura a corrupção nas manchetes porque deseja aniquilar a política. “Uma coisa que me preocupa nesse momento é a tentativa de vários setores dos meios de comunicação, de vários setores da sociedade, de induzir a sociedade brasileira a não gostar de política, de induzir a acreditar que a palavra política por si só está apodrecida”, disse.

Lula tem razão num ponto: a política, que já foi vista como a segunda profissão mais antiga do mundo, agora se parece muito com a primeira. Mas o que causa o fenômeno são os fatos, não o noticiário. Noutros tempos, a análise política exigia meia dúzia de raciocínios transcendentes. Era preciso decidir, por exemplo, se o pragmatismo do PSDB era melhor do que o puritanismo do PT, se a social-democracia responderia às dúvidas do socialismo, se a ética da responsabilidade prevaleceria sobre a ética da convicção…

Hoje, tudo ficou mais simples. Karl Marx e Max Weber tornaram-se descartáveis. Falidas as ideologias, a política rendeu-se sem ressalvas à lógica do negócio. Lula e o PT contribuíram muito para simplificação das coisas ao revelarem que, no poder, não estão imunes às tentações alheias, nem mesmo às alianças esdrúxulas e ao roubo. Ao aderir ao fisiologismo e à corrupção, nivelando-se à culpa comum dos outros, o petismo enterrou a pseudodiferença mágica, irmanando-se na abjeção.

No caso de Lula, o que mais assusta na sua marcha resoluta rumo à sarjeta não é a sensação de que ele se converteu num político igual aos demais. Espantosa mesmo é a impressão de que Lula se tornou um líder diferente de si mesmo —ou do que ele imaginava ser. A orgia que o morubixaba do PT experimentou no exercício despudorado do poder revelou-lhe os prazeres da liberação da sensualidade política. A volta à antiga condição, além de indesejada, é impossível. Castidade é como virgindade. Não dá segunda safra.

“Lula, eu quero ver você romper com o PMDB”, gritou a rapaziada a certa altura. E o orador: “Seria maravilhoso que a Dilma sozinha pudesse governar. Mas entre meu desejo ideológico e o mundo real da política tem uma distância.” Para garantir a governabilidade, disse o ancião da tribo, é preciso fazer alianças. Verdade. Mas Lula foi além. Não fez apenas alianças, fechou negócios. O PT não se coligou, formou sociedades partidárias com fins lucrativos, custeadas pelo déficit público.

“Fora já, fora daqui, Eduardo Cunha junto com Levy”, gritou a juventude do PT, sem se dar conta de que Lula é defensor do “Fica Cunha”. Bem verdade que o presidente da Câmara é acusado de participar do assalto à Petrobras. Mas Lula, que já havia decretado que o mensalão não passara de uma “farsa”, disse à juventude petista que o petrolão é apenas uma “tese”.

“Estão dizendo que companheiros nossos receberam dinheiro de propina, é apenas uma tese, eu quero saber se o dinheiro do PSDB foi buscado na sacristia”, disse Lula, para delírio da audiência. “Na Petrobras, tinha o cofre do dinheiro honesto, da propina. E o Vaccari [tesoureiro do PT preso na Lava Jato] só pegou do cofre do dinheiro sujo?”.

No seu próximo congresso, os jovens do PT decerto vão grudar na parede uma faixa nova: “Cunha, guerreiro do povo brasileiro.” Quem acredita que Vaccari é uma inocente criatura não terá dificuldades para aceitar como verdadeiro o lero-lero segundo o qual o aliado Cunha fez fortuna vendendo carne enlatada para a África, não comendo com as mãos dentro do cofre da Petrobras. A juventude do PT não perde por esperar. Ainda tem muito a desaprender com Lula.


‘Não podemos ter como única agenda afastamento da presidente’, diz Aécio

Josias de Souza

20/11/2015 20:34

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Num instante em que a tese do impeachment definha, o senador Aécio Neves começa a virar a página. Nesta sexta-feira, num evento partidário em Belo Horizonte, o presidente do PSDB disse estar convencido de que sua adversária na sucessão do ano passado cometeu crime de responsabilidade com as chamadas pedaladas fiscais. Mas ponderou, pela primeira vez em público: “Não podemos ter como exclusiva agenda das oposições a questão do afastamento da presidente.”

Quanto ao deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), dono da gaveta que guarda os pedidos de impeachment, Aécio disse que ele perdeu as condições de presidir a Câmara. Até bem pouco, o tucanato mantinha uma aliança tácita com Cunha. Distanciou-se dele depois que o personagem se aproximou do Palácio do Planalto.

Para Aécio, Dilma não exibe condições de fazer a economia “voltar a girar”, criando empregos. E o PSDB, disse ele, pretende atualizar as suas propostas, preparando-se para “o dia seguinte do PT no governo”. Ainda em 2015, o tucanato iniciará a elaboração de “um conjunto de propostas no campo social que possam minimizar os efeitos dessa trágica crise na qual o PT nos mergulhou.”

Aécio não exclui a hipótese de o PSDB votar a favor de propostas fiscais defendidas pelo governo. Continua torcendo o nariz para a recriação da CPMF. Mas admite audar a aprovar a renovação da DRU, a desvinculação das receitas da União — “…uma demonstração de que o PSDB não é oposição ao Brasil”, disse.