Ministério ou Mistério da Saúde?

15/04/2016 – 01h05

Quem nomeia e demite ministro é o presidente da República.

A escolha da chefia do ministério deve atender a preceitos básicos, de, por exemplo, entender da missão e ter capacidade de formar, manter coesa, uma variada equipe técnica.

O ministro deve cumprir as metas preestabelecidas, para isso necessita competência e tempo.

Em dezembro de 1974, me formei pela UFRJ. Nesses 41 anos, excluindo-se os interinos, foram 22 Ministros da Saúde. Desses, o Dr. Adib Jatene ocupou por duas ocasiões esse honroso posto. Ficou por oito meses no governo Collor e por 22 meses no primeiro governo Fernando Henrique Cardoso. O ministro que mais tempo permaneceu na função foi o Dr. Waldyr Arcoverde, por 65 meses, no governo do General Figueiredo; seguido pelo Dr. Paulo Machado, por 60 meses, no governo do General Geisel; o Economista José Serra, por 47 meses, no segundo governo FHC; Dr. José Gomes Temporão, por 45 meses, no segundo governo Lula; e Alexandre Padilha, por 37 meses, no primeiro governo Dilma. O tempo médio na posição foi de 20 meses, porém, se excluirmos os cinco ministros que ficaram três ou mais anos, essa média caí para 15 insuficientes meses para trabalhar em equipe num projeto nacional.

A maioria dos nomeados foram médicos, mas tivemos dois economistas e um físico nuclear. O único que jamais abandonou o estetoscópio foi o Dr. Adibão, como era carinhosamente chamada pelo seu imenso número de admiradores.

FHS e Lula, que presidiram o país com oito anos de mandato cada, tiveram quatro ministros efetivos, e dois dos ministros mais longevos, com extenso curriculum acadêmico e que fizeram boa gestão.

Dilma parece tentar nomear seu quarto ministro em cinco anos. Nunca se viu isso antes nesse país! Durante seus longos 37 meses, Padilha desconstruiu parte da estrutura deixada pelo Dr. Temporão. Deixou o governo e perdeu a eleição para governador de São Paulo.

A imprensa não nomeia ou demite ministro, mas informa o que o pretendente ou o preterido fez.

É claro que há necessidade de que o chefe do ministério seja um profissional que conheça a missão e possa contar com uma adequada equipe. Os técnicos do Ministério da Saúde são competentes, mas, com as mudanças constantes das diretrizes, que deixam de lado a política de Estado para prevalecer uma política passageira de governo, levam a enormes prejuízos no longo prazo. O time fica sem foco, falta a necessária liderança. Não adianta ter um craque, se a equipe é instável. Pode ganhar um ou outro jogo, mas perdemos o campeonato. Eis aí dengue, zika, chicungunha, tuberculose, sífilis, entre outras doenças evitáveis. Sem craque e sem equipe só perdemos.

Após quatro décadas trabalhando como médico, oito presidentes da República e tantos ministros sem um respeitado projeto de longo prazo deixo a pergunta: quando o ministério propiciará saúde, se há tanto mistério na política de saúde?

Prédio do Ministério da Saúde (Foto: Arquivo Google)Prédio do Ministério da Saúde