O que será de Lula?

22/05/2016 – 01h05

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (Foto: O Globo)O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (Foto: O Globo)Analise do Professor e cientista politico Gaudencio Torquato

A análise de viabilidade política é uma complexa equação que abriga um conjunto de fatores, entre os quais o vetor de peso de cada  protagonista envolvido com fatos e situações; as circunstâncias que balizam os acontecimentos; as expectativas e demandas da sociedade.

Não é fácil, pois, projetar o que pode acontecer amanhã, particularmente na política, uma esfera que muda tão rapidamente como as nuvens, conforme já dizia o mineiro Magalhães Pinto. Mesmo assim, é razoável apostar em rumos, tendências, possibilidades, a partir do que se vê, se ouve e se sente.

A Operação Lava Jato, por exemplo, vai até onde? Ela poderá refluir? Em outras palavras, haveria força capaz de deter a continuidade das ações que se processam na “República de Curitiba”?

A análise dessa hipótese, sob o prisma da metodologia da análise política, aponta para a irreversibilidade do processo. O vetor-patrimônio administrado pelo juiz Sérgio Moro, aliado ao vetor-momento, sinaliza que a Lava Jato ganhou vida própria, navegando no piloto automático, sendo praticamente impossível deter sua trajetória.

À guisa de esclarecimento: o vetor-patrimônio, na concepção de Carlos Matus, cientista social chileno, é o ativo político de um ator, a força acumulada por ele. Moro é hoje um dos perfis mais admirados dos brasileiros. Detém um dos mais completos patrimônios morais do pais.

Já o vetor-momento abriga o tempero das circunstâncias e estas, por sua vez, embutem expectativas da sociedade organizada. O Juiz de Curitiba, como é sabido, conta com o endosso social às tarefas que lhe cabem na Operação Lava Jato. Por isso, a dedução fica fácil: seu empreendimento correrá por um bom tempo nas cercanias da política e dos negócios efetuados nos vãos e desvãos do Estado.

Aceita tal hipótese, entremos, agora, num segundo plano de análise. Onde o juiz Sérgio Moro quer chegar? Quem conhece os caminhos da Operação Mani Puliti, ocorrida na Itália e iniciada em fevereiro de 1992 (2.993 mandados de prisão, 6.059 pessoas investigadas, incluindo 872 empresários, 1.978 administradores locais e 438 parlamentares, entre os quais quatro ex-primeiros-ministros), sabe que, ao farejar o caminho do dinheiro, ele quer chegar ao comandante da Operação.

Agora, um dado relevante: a recente decisão do juiz de Curitiba, ao condenar o ex-todo poderoso Chefe da Casa Civil do governo Lula, José Dirceu, a 23 anos de prisão, mostra uma pista. A mais longa pena conferida no bojo da Lava Jato encerrará a vida pública do ex-presidente do PT. Mas o que chama a atenção é o fato de o juiz não reconhecer Dirceu “como o comandante do grupo criminoso, pelo menos considerando-o em toda a sua integralidade (empresários, intermediários, agentes públicos e políticos)…”

Dessa consideração, surge a pergunta: se ele não foi o comandante da Operação, quem seria? Nesse ponto, a análise de viabilidade sugere puxar outros veios que formam a cadeia situacional. Entra em cena, agora, a denúncia feita no STF pelo Procurador Geral da República, Rodrigo Janot, atribuindo ao ex-presidente Lula “papel central” na trama para tentar barrar a Lava Jato. Disse ele: “o ex-presidente impediu e/embaraçou investigação que envolve organização criminosa”. Lula teria, desse modo, determinado a ação delituosa referente à obstrução à Justiça, envolvendo Nestor Cerveró (plano de fuga e ajuda de custo para a família do ex-diretor da Petrobras).

Ganha fôlego, mais uma vez, o nome do ex-presidente Luiz Inácio. Que teria ele a ver com as situações criminosas que começaram com o mensalão e chegaram até os dutos do petrolão? Seria o alvo de Sérgio Moro, no entendimento de que o juiz de Curitiba conserva a clara determinação de identificar a origem e a inspiração dos escândalos que se sucedem às margens do Estado?

A postura do magistrado pauta-se pela cautela. Afinal, Lula é o último dos políticos carismáticos. E mesmo reconhecendo que seu vetor-patrimônio foi corroído pela rede de corrupção escancaradamente estendida na era PT, Luiz Inácio ainda detém razoável bagagem de aplausos e aceitação das massas. Hoje, essa taxa pode ser medida pelos 20% de votos detectados por pesquisas. Coisa que pode diminuir ou aumentar nos próximos tempos, a depender da performance dos atores políticos (Congresso Nacional) e do presidente em exercício, Michel Temer.

Se a economia exibir sinais de recuperação, com a consequente aprovação das margens sociais e do centro às políticas e programas do novo governo, a possibilidade de revermos o palanqueiro petista voltar a brilhar no cenário é remota. A recíproca é verdadeira.

O juiz Sérgio Moro, mesmo agindo sob rigor técnico-jurídico, estará atento a tais alternativas, eis que tem demonstrado ser um exímio analista de momentos e circunstâncias. Haveria enorme diferença entre a detenção de um Lula desprestigiado e a prisão de um líder ainda aclamado pelas margens.

O fator tempo, pois, se faz presente na lista da Lava Jato. Paciência é o que não falta ao rigoroso magistrado. Ele é o ícone do espírito cívico que impregna a Nação. Sabe que contará com os entusiasmados aplausos da comunidade nacional.

Em suma, se José Dirceu não foi o comandante das ações criminosas que abocanharam parcela ponderável dos recursos do país e se Lula acaba de entrar na lista principal do procurador Janot como o agente que teria tentado obstruir a Justiça, a inferência se escancara: ele está, sim, na cartela  de suspeitos afixada pela equipe do MP e do Judiciário de 1ª. instância. O desenlace poderá, até, ser bem mais adiante. Não se pense que ficará sob o tapete.
Moro aguarda o momento adequado para chegar ao homem certo. Muito difícil acreditar que a Operação que comanda seja encerrada sem apontar o grande responsável pela roubalheira.  Figuras sairão das sombras. Convém, porém, lembrar que na política tudo é possível. Até a ressurreição de um desacreditado “Salvador da Pátria”.

O imprevisível acontece. No caso de Lula, toda a descrença deste analista.