Autobiografia (*)

João Almino

João Almino, Vida cigana

Como o presente reescreve o passado e as histórias sempre se refazem, uma

autobiografia é só o que rememoramos agora e, se deve caber em determinado

número de caracteres, é uma pequena seleção do que rememoramos. Apesar disso, vistos

de distintas formas, certos elementos de nossa biografia teimam em permanecer nas

manifestações de nossas lembranças.

Minha literatura está cheia de biografias e memórias inventadas, e, se nunca havia feito

autobiografia, foi por boas razões. O leitor exigente que me imaginava personagem de

romance pode abandonar a leitura deste texto imediatamente, pois o que eu poderia

contar de heroico, dramático ou apaixonante? Já o leitor capaz de associar sua

curiosidade a uma dose de paciência, certo de que esta história não passará de duas

páginas, pode querer saber que passei minha infância em Mossoró, no Rio Grande do

Norte. Morava à Rua Dionísio Filgueira 219, numa casa hoje demolida. Ficava próxima

ao centro, a poucas quadras do mercado central e da Catedral de Santa Luzia. Naquela

época de minha infância a cidade ainda era relativamente pequena. Tanto assim que não

havia por que temer atravessá-la a pé, sozinho, quando passava os domingos na casa de

meus primos, no Alto da Conceição. E o número de telefone tinha três dígitos: 331.

Parte dos brinquedos nós mesmos inventávamos. Carteiras de cigarro se transformavam

em notas de dinheiro depositadas numa instituição financeira situada embaixo da mesa da

sala. Disputava, em jogos, castanhas de caju. Esculpia com canivete meus cavalos de pau.

Comprados em loja, não muito mais do que bolas de gude, um ou outro caminhão de

madeira no natal, uma metralhadora de plástico após uma ida ao dentista ou lança-

perfumes também de plástico durante os carnavais. Brincávamos nas ruas, nas calçadas,

ou então me deitava no parapeito da varanda para ver as normalistas passarem. A cidade

tinha orgulho de ser a segunda a libertar os escravos, e uma vez por ano eu entrava na fila

para cumprimentar um ex-escravo de noventa anos, sentado num banco de praça.

Entre os fatos marcantes, destaco o de estar vivo, e não porque tenha escapado das

bombas de Beirute quando lá vivi por dois anos em plena guerra, mas sim porque uma de

minhas irmãs, Maria José, hoje falecida, me salvou duas vezes: de um carro quase em

frente à casa e de um forte choque elétrico, quando eu, aos três anos, com vocação

científica precoce, desmontava um interruptor de luz.

Se tenho um lado sertanejo, vem de minha mãe, Natalia de Queiroz e Souza. No sertão do

Ceará, no município de Iracema, meu avô Honorato Queiroz tinha uma fazenda, onde eu

andava a cavalo e apostava corridas de cem metros. Era o lugar da liberdade, de rios

secos no verão e de enchentes no inverno; de paisagens e histórias que caberiam num

romance de José Lins do Rego. Andava de pés descalços e chegava das férias de joelhos

ralados. Colhi algodão, debulhei feijão, e de noite, no escuro das calçadas, as histórias de

alma me davam medo.

Tive sorte: vivi cercado de mulheres, o que, convenhamos, torna a vida menos monótona

e mais divertida, cheia de histórias para contar, pois em geral suas conversas são mais

ricas e emocionantes do que as de rodas masculinas. Com quatro irmãs (além de Maria

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José, Salete, Fátima e Bernadete) e várias primas (as mais próximas as da família Queiroz

Maciel), não era raro ser convidado para ser padrinho de batismo de bonecas ou então o

padre a oficiar o batismo. Meu único irmão, dezesseis anos mais velho, saiu de casa cedo

para estudar. Com a morte de meu pai, quando eu tinha doze anos, fiquei eu, o caçula, em

casa a maior parte do tempo com minhas quatro irmãs e minha mãe, embora a presença

de Pedro Almino, que logo se formaria em medicina, fosse constante. Ele exerceria para

mim o papel de um segundo pai.

Eu tinha ainda doze anos e um pai recentemente falecido quando nos mudamos para a

Vila Mondubim, nos arredores de Fortaleza. Por essa época eu já não pensava em ser

padre, mas sim arquiteto, jornalista, psicólogo e, como era bom em matemática, fui

incentivado por meus professores a me preparar para engenharia. Mudei a tempo: estudei

direito, administração e economia, concluindo o primeiro. O interesse pela pintura

substituí pela fotografia, à qual me dedico um pouco até hoje, havendo publicado

recentemente o livro de fotos Brasília; deixei a escrita de poesia para ser leitor de poesia,

e o convívio com poetas me levou a envolver-me na elaboração de antologias. De forma

insistente, havia a literatura e a diplomacia, carreiras que julgava compatíveis uma com a

outra, talvez pela admiração que tinha por alguns diplomatas escritores, como João

Cabral, Vinicius e Guimarães Rosa.

Queria sair do Ceará, morar no Rio, e o caminho mais certo passava pelo Instituto Rio

Branco. No Rio aluguei um quarto num apartamento do Catete. Sobrevivi dando aulas de

inglês, o que já fazia em Fortaleza, onde dirigia um curso de línguas. Financiei minha

viagem com um prêmio de um concurso nacional sobre direito de autor e mais a venda de

um pequeno terreno que meu pai me deixou de herança, a Fazendola ou sítio Santa Maria,

onde ele tinha uma vacaria. Meu irmão Pedro Almino me diz que hoje é onde estão

localizados os conjuntos habitacionais Abolição I e Abolição II.

Na hora de fazer mestrado, encaminhei-me para a sociologia, porque queria ler Marx e os

marxistas franceses, alguns dos quais vim a encontrar na França anos depois, quando

acompanhei e senti bem dentro de mim a chamada crise do marxismo na segunda metade

dos anos setenta. Fiz meu doutorado em Paris numa época ainda marcada pelo marxismo

e também pelo espírito de 68 e a cultura hippie, dos quais não fugi. Sartre ainda era vivo,

frequentei as aulas de Foucault no Collège de France e seu seminário restrito, aulas

esparsas de Barthes e de Bourdieu, mas o que mais me atraiu foi o grupo da antiga revista

Socialisme ou Barbarie. Com Lefort, meu diretor de tese, aprendi não apenas a ler

criticamente Maquiavel e Marx, mas também a respeitar algumas ideias liberais e

conservadoras, de Tocqueville, Burke ou Aron, e descobri que os direitos humanos, os

direitos sindicais, a liberdade de organização e de expressão não eram direitos burgueses:

eram fundamentais para existência da sociedade. Daí surgiu Os Democratas Autoritários,

que creio ter ajudado a lançar o debate sobre uma Assembléia Constituinte.

Mas o melhor de Paris foi que conheci minha mulher, Bia Wouk, que ali vivia como

artista plástica. Eu morava na Notre Dame des Champs e frequentava o café Le Select,

onde algumas páginas de meu primeiro romance, Ideias para Onde Passar o Fim do

Mundo, foram escritas. O interesse pela literatura vinha de antes. Havia me acompanhado

praticamente durante toda a minha vida. Foi do meu pai, João Almino de Souza, que

herdei, além do nome, o gosto pela leitura. Com nove anos tive a ideia de escrever um

livro e mostrei a ele cerca de cinquenta páginas escritas num caderno de escola. Acho que

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foi o entusiasmo dele com minha escrita meu primeiro grande incentivo para que

crescesse aquele germe que pouco a pouco foi tomando conta de mim. Ele nunca tinha

frequentado escola, foi um autodidata, mas lia muito. Numa pequena estante, dedicava

uma meia prateleira a alguns livros de romancistas regionalistas do Nordeste, e várias a

livros de história do Brasil. Era um homem santo, dedicado à família, aos livros e

também à igreja. Às cinco da manhã me acordava para irmos juntos à Feira e à missa.

Quando na minha literatura tive de criar, às vezes, pais cruéis ou corruptos, nunca pude

me inspirar nele, a não ser por contraste. Em Mossoró os mais velhos se lembrarão de

suas contribuições à cidade, em especial seu empenho pela criação da União Caixeral.

Com minha história e por causa de minhas primeiras leituras, teria me enveredado pela

literatura regionalista nordestina não fosse o desejo, mais forte, de não repetir o que já

estava feito. Em 1985 o Brasil entrava numa nova fase política, e a literatura precisava

renovar-se. Achei que Brasília, por ser cidade nova, sem tradição nem história dissociada

do mito modernizador de seu projeto, se prestaria a uma literatura desenraizada, que

retratasse as identidades múltiplas, cambiantes e em aberto e espelhasse algo que tenho

chamado de universalismo descentrado. Daí surgiram os demais romances: Samba-

Enredo, As Cinco Estações do Amor, O Livro das Emoções, Cidade Livre e o

recentemente publicado Enigmas da Primavera. No lugar de histórias que me seguissem

mundo afora, trouxe os lugares por onde passei àquele ponto de referência. Em Brasília,

onde residi em quatro ocasiões e por um período total de mais de dez anos, coloquei

também o Nordeste e o mundo – ou pelo menos o mundo daquelas muitas andanças

propiciadas pela diplomacia, carreira que também abracei e à qual dediquei muito de meu

tempo e de minhas energias: além de Paris, Beirute, México, de onde voltamos em 1985

ao Brasil no momento da democratização, época em que nasceu nossa primeira filha,

Letícia, hoje arquiteta; Washington, onde nasceu nossa filha mais nova, Elisa, jovem

escritora, crítica de arte e tradutora; São Francisco, Lisboa, Londres, Miami, Chicago e

Madri. Sempre com o pé na estrada, portanto; vida cigana.

Algumas dessas cidades me propiciaram o convívio com a vida universitária. Dei aulas,

de filosofia ou literatura, para continuar aprendendo: na Universidade de Brasília,

Instituto Rio Branco, UNAM, Berkeley, Stanford e Universidade de Chicago, o que me

levou a publicar, ao lado dos romances, livros de ensaios filosóficos ou literários. Entre

os primeiros estão o O segredo e a informação e A idade do presente. Os ensaios

literários, escritos de circunstância, para atender, como escritor, a convites para participar

de conferências estão reunidos em dois livros: Escrita em contraponto e O diabrete

angélico e o pavão, este último sobre Machado de Assis.

Em meio a tantos interesses e lugares, a literatura tem sido minha companhia mais fiel,

por ser igualmente companheira na alegria e na tristeza, na esperança e no desespero, na

tranquilidade e na angústia. Escrevo ficção todos os dias. Publicar é fundamental, ter

leitores também, mas o mais importante mesmo é escrever, como quem tem de fazer

exercício físico diariamente, pois no meu caso a escrita é uma forma de organização do

caos da vida.

(*) Originalmente publicada no Jornal de Letras, Lisboa, em 12 de janeiro de 2011,

p.12. Atualizada em 2015.

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