Dilma sabia de caixa dois em campanha, dizem João Santana e Mônica Moura

Marqueteiro afirmou ainda que, após a eleição de 2014, Dilma perguntou se conta no exterior para receber recursos era segura

POR ANDRÉ DE SOUZA

A ex-presidente Dilma Rousseff – Aílton de Freitas / 11-1-2016

BRASÍLIA – Em depoimento prestado nesta segunda-feira, o marqueteiro João Santana e sua mulher, a empresária Mônica Moura, disseram que a ex-presidente Dilma Rousseff tinha conhecimento de caixa dois na campanha de 2014. Mônica Moura contou que, pelo teor das conversas que teve com a ex-presidente, Dilma sabia da existência de recursos não contabilizados. Santana foi mais taxativo que a mulher ao dizer que Dilma tinha sim conhecimento de caixa dois. Ele fez as três últimas campanhas presidenciais do PT: 2006, vencida por Lula, e 2010 e 2014, quando Dilma ganhou.

João Santana disse também que, em conversa com Dilma após a eleição, ela perguntou se a conta Shellbill, usada pelo marqueteiro para receber recursos no exterior, era segura, blindada contra investigações. Os depoimentos fazem parte da ação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que pode levar à cassação da chapa vencedora da eleição presidencial de 2014. Como Dilma sofreu o processo de impeachment no ano passado, a ação poderá, na prática, fazer com que o atual presidente, Michel Temer, que era vice de Dilma, perca o mandato.

O marqueteiro contou ainda que fez uma pesquisa qualitativa com grupos de eleitores indicando que Temer não contribuiria tanto para a campanha, por isso sua participação foi reduzida. Nessa pesquisa, havia inclusive pessoas dizendo ter impressão de que Temer era adepto do satanismo.

Os depoimentos estão sob sigilo. Mas, assim como ocorreu com as audiências de executivos da Odebrecht, parte do que foi falado se tornou público, mesmo devendo ainda ser mantido o segredo. Isso levou o ministro Herman Benjamin, relator da ação no TSE, a fazer uma reprimenda durante os depoimentos desta segunda-feira, cobrando o compromisso de que eles ficassem sob sigilo.

O depoimento foi prestado no Tribunal Regional Eleitoral (TRE) da Bahia, com a presença do relator no local. Além de João Santana e Mônica Moura, também foi ouvido André Santana, que trabalhava para o casal. Os três firmaram um acordo de delação premiada com o Ministério Público Federal (MPF), já homologado pelo ministro Edson Fachin, relator dos processos da Lava-Jato no Supremo Tribunal Federal.

Em nota, os advogados Juliano Campelo e Rodrigo Castor, que defendem o casal, informaram que “foram reiterados os termos do interrogatório prestados na semana passada ao Juiz Sergio Moro, complementados com as respostas às demais perguntas formuladas”. Mas não divulgaram o teor dos depoimentos, lembrando que eles estão sob sigilo.

Na semana passada, João Santana e Mônica Moura confirmaram ao juiz Sérgio Moro a interlocução do ex-ministro Antonio Palocci para pagamentos de caixa 2 nas campanhas do PT. Mônica disse que negociou com o ex-ministro os valores não contabilizados a serem pagos na reeleição do ex-presidente Lula, em 2006, e na eleição da ex-presidente Dilma Rousseff em 2010. Mônica disse ainda que Palocci pedia que parte dos pagamentos feitos “por fora” fossem realizados pela Odebrecht.

O julgamento no TSE começaria em 4 de abril, mas, a pedido dos advogados, foi dado um prazo extra para que pudessem se manifestar. Na oportunidade, o tribunal também marcou quatro novos depoimentos. Além de João Santana, Mônica Moura e André Santana, já foi ouvido o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega, acusado em delações da Odebrecht de arrecadar recursos para o PT.

Com o fim dos depoimentos já marcados, as defesas poderão pedir contra-provas, para contestar informações dadas pelos depoentes, ou mesmo para solicitar que eles apresentem documentos comprovando as afirmações. O relator pode ou não conceder os eventuais pedidos dos advogados. Em seguida, eles terão prazo de cinco dias para apresentar novas alegações finais.

Mesmo se o julgamento começar em maio, é possível que não seja concluído ainda neste semestre. Há expectativa de ao menos um ministro pedir vista depois do voto do relator, para estudar melhor o assunto. Não há prazo para que ele devolva o caso a julgamento.

O TSE tem sete ministros, que mudam com frequência. Henrique Neves, por exemplo, um dos ministros presentes na sessão do dia 4 de abril, já deixou o tribunal. No lugar dele, Temer nomeou o advogado Admar Gonzaga, que encabeçava uma lista tríplice encaminhada pelo STF. Em 5 de maio, a ministra Luciana Lóssio também deixará o tribunal. Para seu lugar, irá o advogado Tarcísio Vieira. Assim, Gonzaga e Vieira vão participar do julgamento da ação.

Em nota, Dilma disse que João Santana e Mônica Moura faltaram com a verdade, “fazendo afirmações desprovidas de qualquer fundamento ou prova”. Segundo a ex-presidente, tudo indica que os dois foram induzidos a delatar fatos inexistentes para ganhar sua liberdade e atenuar as penas em eventuais condenações.

“Dilma Rousseff nunca negociou diretamente quaisquer pagamentos em suas campanhas eleitorais, e sempre determinou expressamente a seus coordenadores de campanha que a legislação eleitoral fosse rigorosamente cumprida respeitada”, diz trecho da nota.

Ela destacou ainda que declarou ao TSE em 2014 gastos de R$ 70 milhões com o casal, sendo “os profissionais de marketing mais bem pagos na história das eleições no Brasil”. Assim, não havia motivo para pagamentos por fora. A ex-presidente criticou ainda o vazamento de trechos dos depoimentos.

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/brasil/dilma-sabia-de-caixa-dois-em-campanha-dizem-joao-santana-monica-moura-21250953#ixzz4fESxF2mk
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José Nêumanne

10 Abril 2017 | 10h16

Dom Steiner, da CNBB, maldiz reformas que põem fim a privilégios Foto: André Dusek/Estadão 2014

A pregação dos bispos católicos contra as reformas deixa muito claro que o combate contra as mudanças, que, aliás, tem encontrado eco num Congresso corrompido, suspeito e, sobretudo, pouco representativo, que grupos de parasitas e sanguessugas não aceitam de nenhuma perder privilégios, inalcançáveis pelo cidadão comum, porque insistem em ficar mamando nas tetas do governo e chupando o sangue do povo. Quem combate as reformas são os sindicalistas, os militantes dos partidos que foram despejados do poder, porque estavam comandando um grande assalto aos cofres da República, e os hierarcas católicos. Todos eles são dependentes de imposto sindical, fundo partidário, óbulos e dízimos.

(Comentário no Jornal Eldorado da Rádio Eldorado – FM 107,3 – na segunda-feira 10 de abril de 2017, às 7h30m)

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Íntegra do comentário em texto:

Eldorado 10 de abril de 2017 Segunda-feira

SONORA Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós, Imperatriz, 1989

https://www.youtube.com/watch?v=Vypdabo9YUY a partir de 0:20

Segundo a CNBB, reformas como a trabalhista e a previdenciária, nos moldes propostos pelo governo do presidente Michel Temer (PDMB), podem até atender aos apelos do mercado, mas deixam de fora interesses básicos do cidadão –justamente o maior afetado por elas, e o que menos ou nada foi chamado a participar dessa discussão. Essa pregação ajuda a sociedade brasileira a sair da crise econômica em que ainda está afundada?

De acordo com reportagem publicada pela Uol no fim de semana, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil  se reuniu nas últimas semanas com representantes da CUT (Central Única dos Trabalhadores) e de outras centrais sindicais no debate por uma agenda de mobilização contra as reformas. No último dia 23, a entidade divulgou uma nota em que criticou duramente a reforma previdenciária ao afirmar, por exemplo, que a proposta defendida pelo governo “escolhe o caminho da exclusão social”. “Por que não discutir abertamente com a sociedade temas como esses, mas sem se preocupar em sinalizar apenas para o mercado, e sim, preocupado com o cidadão? Não é possível, a partir de um gabinete, determinar o que um cidadão pode ou não”, afirma o secretário-geral da CNBB, Dom Leonardo Ulrich Steiner, 66.

Arcebispo auxiliar de Brasília e desde 2001 secretário-geral da entidade, Steiner deu entrevista à UOL sobre como a representação máxima dos bispos, de um país ainda de maioria católica, pretende atuar em relação às medidas defendidas por Temer, seja em posicionamentos oficiais –além de nota do mês passado, o assunto deve entrar na pauta da Assembleia Geral anual da CNBB, no final deste mês –, seja em ações práticas nas comunidades eclesiásticas –como, por exemplo, a abordagem crítica das reformas em missas.

A pregação dos bispos católicos contra as reformas deixa muito claro que o combate contra as reformas, que, aliás, tem encontrado eco num Congresso corrompido, suspeito e, sobretudo, pouco representativo que grupos de parasitas sanguessugas não aceitam de nenhuma forma as reformas, que continuam sendo necessárias, porque insistem em ficar mamando nas tetas do governo e chupando o sangue do povo. Quem combate as reformas são os sindicalistas, os militantes dos partidos que foram desapeados do poder porque estavam comandando um grande assalto aos cofres da República e os hierarcas católicos. São todos dependentes de imposto sindical, fundo partidário e dízimos. Um dia destes estava no estúdio da TV Gazeta quando o ex-ministro do Trabalho e do Superior Tribunal do Trabalho Almir Pazzianotto esclareceu em poucas palavras essa questão da forma como entendo e infelizmente o povo ainda não compreendeu inteiramente: essa tentativa de satanização do mercado pela CNBB traz a lume a denúncia de Pazzianotto: sindicatos não dão empregos, o que dá emprego e´empresa, ou seja o mercado que o senhor bispo anatemiza. O resto é lorota, Haisem.

O Estadão relatou no domingo que a ex-presidente Dilma Rousseff disse neste sábado temer que seu antecessor e padrinho político, Luiz Inácio Lula da Silva, seja preso antes da disputa presidencial de 2018, o que, em sua opinião, representaria uma mudança ilegítima nas regras das eleições. “Me preocupa muito que prendam o Lula, me preocupa muito que tirem o Lula da parada”, afirmou em palestra na Universidade Harvard. Ela tem razão?

“Infelizmente para as oposições, ele tem 38% nas pesquisas, com tudo o que fizeram com ele”, afirmou. “É uma possibilidade concreta, meus caros. Deixa ele concorrer para ver se ele não ganha”, ressaltou no Brazil Conference at Harvard & MIT, organizado por estudantes brasileiros nas duas organizações. “Não acho que o Lula tem de ganhar ou perder. Ele tem de concorrer. Se perder, é da regra do jogo.”

Com seu cérebro confuso, Dilma confunde legislação eleitoral com código penal. Lula não disputa uma eleição faz tempo. De fato, ele aparece em primeiro lugar nas pesquisas de preferência dos eleitores. Mas seu índice de rejeição ronda os 50%. Ou seja as chances de ele ganhar uma eleição majoritária são bastante duvidosas. Ela manipula números com a incompetência com que manobrou a economia no País.

Aliás, a pregação de Dilma no exterior contra as instituições brasileiras é um crime de lesa-pátria com a agravante de que o governo temeroso pagar passagens e hospedagens dela e de uma trupe de militantes antibrasil.

Dilma defendeu uma Assembleia Constituinte exclusiva para realização da reforma política. Segundo ela, a fragmentação partidária tornou o Brasil ingovernável e alimentou o fisiologismo. “Todo mundo quer ter partido para ter Fundo Partidário e tempo de TV. Esse sistema cria mecanismos para que haja fisiologismo e corrupção”, afirmou a ex-presidente, que defendeu o financiamento público de campanhas.

Ou seja, ela está a serviço da corrupção dos partidos por empresários que obtiveram lucros absurdos corrompendo burocratas, parlamentares, governantes e dirigentes partidários. Seu partido, o PT, está sendo alvo de uma investigação de roubo bilionário e isso retira completamente sua autoridade para falar e propor qualquer coisa aqui e lá fora.

Por falar nisso também no sábado e no mesmo encontro acadêmico, o juiz federal Sérgio Moro, responsável pelo julgamento da operação Lava Jato em primeira instância e que, ao contrário de Dilma, goza de excelente reputação no Brasil, disse que a prática de corrupção para caixa 2 eleitoral é pior que a corrupção para o enriquecimento ilícito. Será que é mesmo?

Moro disse o seguinte: “Se eu peguei essa propina e coloquei em uma conta na Suíça, isso é um crime, mas esse dinheiro está lá, não está mais fazendo mal a ninguém naquele momento”, afirmou. “Agora, se eu utilizo para ganhar uma eleição, para trapacear uma eleição, isso para mim é terrível.”

Moro criticou o Congresso pela não aprovação das propostas do Ministério Público de combate à corrupção, disse que o projeto de abuso de autoridade ameaça a independência de juízes e se colocou contra a proposta de anistia ao caixa 2.

Aplaudido de pé ao entrar no auditório, o juiz disse ter ficado chocado no julgamento de processos com os argumentos dos que tentavam diferenciar a corrupção para benefício pessoal e para financiamento de eleições. “Temos que falar a verdade, a Caixa 2 nas eleições é trapaça, é um crime contra a democracia”, afirmou no evento Brazil Conference at Harvard & MIT, promovido por estudantes brasileiros das duas instituições.” Eu não estou me referindo a nenhuma campanha eleitoral específica, estou falando em geral”, ressaltou.

Tenho grande respeito pelo juiz Sérgio Moro e apoio integralmente seu trabalho histórico. Acho também que o apoio da população a esse trabalho é uma prova de que a sociedade brasileira não aceita mais a aceitação passiva e leniente da prática contumaz de corrupção que tem desmoralizado e empobrecido o Estado brasileiro. Tenho dúvidas a respeito dessa gradação e não acho importante discutir se caixa 2 é mais crime ou menos crime do que corrupção. São crimes diferentes e ambos são lesivos ao interesse público. Nesse particular, concordo com o que o jurista Modesto Carvalhosa escreveu frequentemente na página de Opinião do Estadão chamando a atenção para o fato de que o enriquecimento ilícito é um crime pessoal, penal. E o de caixa 2, um crime contra o sistema. O empresário que sonega impostos viola o princípio fundamental do capitalismo que é a igualdade de oportunidades. Ao não pagar impostos, ele goza de benefícios não usufruídos pelos concorrentes que pagam honestamente suas obrigações. No caso do político, a corrupção e o uso de caixa 2 são crimes funcionais, que lesam direitos fundamentais da cidadania nos Estados de direito, Pois interfere no resultado de eleições. Dilma, por exemplo, voltou a falar com seu estilo tabitate em eleições, como se a democracia só dependesse do voto. O voto é fundamental. Por isso mesmo, o estelionato cometido em 2014 em sua reeleição não pode ficar sem punição. A chapa Dilma-Temer foi reeleita em 2014 beneficiando-se na maior fraude eleitoral da História do Brasil. Apegar-se à contagem daqueles votos, como ela faz, é um outro crime, agravado pelo fato de que o faz usando dinheiro público para viajar para o Exterior e lá pregar contra nossas instituições.

Você falou em Modesto Carvalhosa. Ele e os juristas Flávio Bierrembach e José Carlos Dias defenderam em artigo na página 2 de sábado do Estadão a convocação de um plebiscito para decidir se se convoca uma constituinte independente ou, em vez disso se elege um Congresso Constituinte como aconteceu em 1988. Você acha a proposta viável?

O artigo é lúcido e primoroso. Vou ler alguns trechos para que você e os ouvintes tenham uma ideia das verdades que ele traz. Cito: Os constantes escândalos comprovam a inviabilidade do vigente sistema político-constitucional. Ele representa um modelo obsoleto, oligarca, intervencionista, cartorial, corporativista e anti-isonômico, que concede supersalários, foros privilegiados e muitos outros benefícios a um pequeno grupo de agentes públicos e políticos, enquanto o resto da população não tem meios para superar a ineficiência do Estado e exercer seus direitos mais básicos.

A Constituição de 1988 transformou a burocracia num obstáculo perverso ao exercício da cidadania. Ela é fruto de um momento histórico bastante peculiar, o fim de um regime de exceção, que não corresponde mais à realidade do Brasil; representa um conjunto de interesses e modelos que já em 1988 estavam em franca deterioração no mundo civilizado.

Por ser um compromisso de interesses entre as forças que disputavam o poder após a ditadura, a Carta de 88 foi recheada de casuísmos e de corporativismos. Estabeleceu um absurdo regime político que se nutre de um sistema pseudopartidário, excessivamente fragmentado e capturado por interesses de corporações e de facções político-criminosas. Isso torna excessivamente custosa a governabilidade, criando uma relação tóxica entre os Poderes, o que favorece a corrupção, o tráfico de influência e os rombos devastadores nas contas públicas.

Concordo com tudo o que nele está escrito, convoco sua leitura e termino citando seu último parágrafo como uma bandeira: Impõe-se, enfim, uma mobilização da sociedade civil e organizada que exija do Congresso Nacional a realização de um plebiscito, nos termos da Lei 9.709/98, para que o povo decida, soberanamente, se quer uma Assembleia Constituinte originária e independente, que estabeleça as novas estruturas para o desenvolvimento sustentável do nosso país, num autêntico Estado Democrático de Direito.

Diante do horror que é o quadro institucional do Brasil hoje concordo que é uma utopia. No entanto, é o certo. E precisamos lutar para que isso se realize. Pois não vejo outro caminho para sairmos desta situação de servidão em que o cidadão brasileiro vive hoje submetido a uma casta de políticos, burocratas, militantes, líderes sindicais e chefões religiosos que só querem saber de manter seus privilégios.

SONORA Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós, Imperatriz, 1989

https://www.youtube.com/watch?v=Vypdabo9YUY a partir de 0:20

 

 

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Dom Steiner, da CNBB, maldiz reformas que põem fim a privilégios Foto: André Dusek/Estadão 2014

Sérgio Moro joga xadrez. Os políticos jogam damas

31/03/2017 – 02h47

Ricardo Noblat

Com um único lance que surpreendeu seus adversários, a Lava Jato fez ontem uma jogada de mestre: pela primeira vez desde que existe, ao invés de ameaçar um político ou um grupo de políticos, pôs em xeque todo um partido. O Partido Progressista (PP) foi acusado de improbidade administrativa. Se a acusação for aceita mais tarde pela Justiça, ele terá que devolver R$ 2 bilhões aos cofres do Estado.

A tudo assistiu à distância o juiz Sérgio Moro. Enquanto em Curitiba os procuradores da Lava Jato anunciavam a novidade, ele se ocupava em Brasília em debater a reforma do Código de Processo Penal. Foi obrigado a ouvir críticas diretas e indiretas de deputados da oposição, órfãos da ex-presidente Dilma e do ex-presidente Lula, que no dia 3 de maio irá depor em Curitiba. Mas não se incomodou.

Aos deputados parece ter passado despercebido outro movimento sutil do juiz: a escolha da cidade para assinar a sentença que condenou a 15 anos e quatro meses de prisão o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Brasília é o coração de todas as tramas em curso contra a Lava Jato. Conspira-se, ali, abertamente para sufocar ou impor limites à Lava Jato. Ela começou em Brasília ao investigar uma rede de postos de combustíveis.

O xeque ao PP, com a denúncia também de seis dos seus atuais deputados federais e quatro ex-deputados, significa que mais adiante outros partidos deverão ser alvos da mesma acusação. Natural que sejam. Beneficiaram-se de propinas como o PP. De recursos desviados da Petrobras como o PP. E vários dos seus membros enriqueceram igualmente. Quem garante que eles sobreviverão quando a Lava Jato tiver chegado ao fim?

Mais de um partido não sobreviveu à Operação Mãos Limpas, na Itália. Foi devastador para eles a descoberta do mar de lama que acabou por afogá-los. De resto, seus principais líderes foram fulminados pela operação, como aqui estão sendo as estrelas de partidos de todos os tamanhos. Os resultados das eleições do próximo ano poderão provocar um dos maiores expurgos políticos da nossa história.

Com o xeque ao PP e a condenação de Cunha, os procuradores e Moro desidrataram ainda mais o discurso de que o PT e Lula são vítimas de perseguição política e objetivos preferenciais da Lava Jato. Cunha, sem o qual o impeachment de Dilma jamais teria existido, está em situação pior do que Lula. O PP tem mais nomes envolvidos com a Lava Jato do que o PT. Tal condição poderá ser reivindicada no futuro pelo PMDB.

Impugnação da chapa Dilma-Temer ameaça a pinguela

28/03/2017 – 02h32

Ricardo Noblat

“O governo atual é uma pinguela”, disse Fernando Henrique Cardoso

Todos foram pegos de surpresa – o governo, o Congresso e até mesmo os ministros que no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que julgarão o caso. Eles contavam que só daqui a 15 dias ou um pouco mais, o ministro Herman Benjamin apresentasse seu voto como relator no processo movido pelo PSDB que pede a cassação da chapa Dilma-Temer por abuso de poder econômico e outras irregularidades.

Benjamin despachou, ontem, cópia do seu voto para os demais seis ministros do TSE. Telefonou ao presidente, Gilmar Mendes, e pediu que incluísse o processo na pauta de julgamentos do plenário. A cumprir-se a norma, o processo deverá ser votado na próxima semana. Gilmar adiantou que a norma será respeitada. Se for, e se nenhum ministro pedir vista do processo, o caso será encerrado em seguida.

É provável que algum ministro peça, sim.  O assunto é polêmico e de alto teor explosivo. O voto de Benjamin tem pouco mais de mil páginas. E quanto mais tempo demorar para ser apreciado, melhor para o governo. Em abril, o ministro Henrique Neves deixará o TSE com o término do seu mandato. Em maio será a vez da ministra Luciana Lóssio. Gente que cerca o presidente Michel Temer acha que os dois votariam pela cassação.

O plenário é composto de sete ministros. Com três votos pela cassação, incluído o de Benjamin, bastaria mais um para decidir a parada. Benjamin se recusa a revelar seu voto. Só o fará quando o ler em plenário. Mas até os apontadores do jogo do bicho na Esplanada dos Ministérios sabem que ele votará pela cassação da chapa completa. Há sólida jurisprudência no Supremo Tribunal Federal (STF) sobre o julgamento de contas eleitorais.

Se titular de chapa e vice são votados juntos, as contas de campanha deles não podem ser separadas. No início de 2015, quando o PSDB entrou com o processo contra a chapa, Dilma ainda era presidente e Temer não passava de um “vice decorativo”. Foi ele mesmo quem se considerou assim. Com o impeachment de Dilma, o PSDB passou a governar junto com o PMDB de Temer. Não quer mais cassá-lo, só a Dilma.

A eventual cassação da chapa não produziria efeitos imediatos. As defesas de Temer e de Dilma ainda poderiam entrar com recursos no TSE. E mais tarde, se necessário, no STF. Mas o efeito político do julgamento poderia ser catastrófico para o governo às vésperas de votações importantes no Congresso – entre elas a da reforma da Previdência, por ora, emperrada. Temer aposta na força de Gilmar para sustentar a pinguela

Pedro Almino Queiroz compartilhou um link.
6 h ·

O diplomata João Almino foi eleito para a Academia Brasileira de Letras.
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Um tira-gosto de torresmo para os amigos , uma crônica que dá inicio ao livro ” Polindo Palavras na Lousa da Memória ” . Uma homenagem, mais que merecida ao genial e querido Belchior !

Uma rua secundária , pacata , que imita a vida humana terminando de modo súbito , acolhe uma aconchegante praça , bem arborizada , ali pras bandas do bairro Dionísio Torres , na loira desposada do sol e amante de eternos boêmios. Não haveria de faltar naquele logradouro , um quiosque onde rola um som mecânico da tradicional Música Popular Brasileira , pela noite adentro .Um certo rapaz latino-americano , sem dinheiro no banco e vindo da cidade de Sobral , no interior do Ceará , enche com sua voz rascante , belos poemas musicados para o regozijo de notívagos que ali tomam acento .
Antônio Carlos Belchior Fontenele Fernandes nasceu no município de Sobral , no Ceará, no dia 28 de outubro de 1946 .Teve infância tranquila em sua cidade natal e migrou , como muitos , para a capital do estado , Fortaleza , em 1962 . Estudou Filosofia e Humanidades e em 1968 iniciou o curso de medicina na Universidade Federal do Ceará . Sua redação na prova de português para o acesso à universidade sobre o poema “ Telha de Vidro “ da cearense Rachel de Queiroz , obteve nota máxima . Em 1971 segue para o sul do país onde tece uma rica carreira artística , deixando para trás seus estudos médicos . A partir de então lançou 22 discos , quase que um trabalho por ano , com letras de músicas bem elaboradas e com temática envolvendo a inquietação da juventude , a saudade de sua terra natal e sobre o cotidiano , como “ à palo seco “ , que se abate no lombo “ do pacato cidadão comum “ .
“ Era um cidadão comum como esses que se vê na rua / falava de negócios , ria , via show de mulher nua / vivia o dia e não o sol , a noite e não a lua / acordava sempre cedo ( era um passarinho urbano ) / embarcava no metrô , o nosso metropolitano / era um homem de bons modos : “ com licença ; foi engano “ / era feito aquela gente honesta , boa e comovida / que tem no fim da tarde a sensação da missão cumprida / acreditava em Deus e em outras coisas invisíveis / dizia sempre sim aos senhores infalíveis / pois é ; tendo dinheiro não há coisas impossíveis / mas o anjo do Senhor ( de quem nos fala o Livro Santo ) / desceu do céu pra uma cerveja , junto dele , no seu canto / e a morte o carregou , feito um pacote , no seu manto / – que a terra lhe seja leve – “ .
E segue a saudade plantando sementes no coração selvagem de Belchior , mesmo no período discricionário então vigente ( 1964 – 1985 ) , sendo o poeta sobralense , capaz de matar ou morrer , armado com seu tição de rimas .

“ Quando eu não tinha o olhar lacrimoso / que hoje eu trago e tenho / quando adoçava meu pranto e meu sono / no bagaço de cana do engenho / quando eu ganhava este mundo de meu Deus / fazendo eu mesmo o meu caminho / por entre as fileiras do milho verde / que ondeia , com saudade do verde marinho / eu era alegre como um rio / um bicho , um bando de pardais / como um galo quando havia / quando havia galos , noites e quintais / mas veio o tempo negro e , a força fez comigo o mal que a força sempre faz / não sou feliz , mas não sou mudo / hoje eu canto muito mais “ .

E assim Belchior, agora um senhor beirando a casa dos setenta anos , permanece atual , com seu trato maneiro , em linguagem poética , jogando rimas em temas ligados a infância ( Hora do Almoço ) , juventude ( Como Nossos Pais ) , a angústia da cidade grande ( Alucinação ) e filosofia ( Divina Comédia Humana ) . Uma formação humanística bem plasmada permitiu a Antônio Carlos Belchior pousar em várias áreas , sempre com versos de uma pungente beleza .

“ Estava mais angustiado que um goleiro na hora do gol /quando você entrou em mim, como um sol no quintal / aí um analista amigo meu disse que desse jeito / não vou ser feliz direito / porque o amor é uma coisa mais profunda que um encontro casual / aí um analista amigo meu disse que desse jeito / não vou viver satisfeito /porque o amor é uma coisa mais profunda que uma transa sensual / deixando a profundidade de lado / ah ! eu quero é ficar colado à pele dela noite e dia / fazendo tudo e de novo dizendo : sim à paixão morando na filosofia / quero gozar no seu céu , mas pode ser no seu inferno / viver a divina comédia humana onde nada é eterno/ ora – direis : ouvir estrelas , certo ! perdeste o senso / e eu vos direi no entanto / enquanto houver espaço , corpo , tempo e algum modo de dizer não , eu canto “ .
Caro Belchior, a patota de boêmios que curte uma caninha com torresmo aqui na praça Rogério Fróes , em Fortaleza , e a Turma de Medicina da UFC ( 1973 ) , que , também é a sua , faz chegar até você , aí no aconchego do seu próprio universo , que seguiremos ouvindo estrelas , banhados em prata pela lua que vigia nossos trôpegos passos , e levando em frente nossa divina comédia humana onde nada é eterno . Agradecemos , sua agradável companhia diária e de resto , só muita saudade .