Sérgio Moro joga xadrez. Os políticos jogam damas

31/03/2017 – 02h47

Ricardo Noblat

Com um único lance que surpreendeu seus adversários, a Lava Jato fez ontem uma jogada de mestre: pela primeira vez desde que existe, ao invés de ameaçar um político ou um grupo de políticos, pôs em xeque todo um partido. O Partido Progressista (PP) foi acusado de improbidade administrativa. Se a acusação for aceita mais tarde pela Justiça, ele terá que devolver R$ 2 bilhões aos cofres do Estado.

A tudo assistiu à distância o juiz Sérgio Moro. Enquanto em Curitiba os procuradores da Lava Jato anunciavam a novidade, ele se ocupava em Brasília em debater a reforma do Código de Processo Penal. Foi obrigado a ouvir críticas diretas e indiretas de deputados da oposição, órfãos da ex-presidente Dilma e do ex-presidente Lula, que no dia 3 de maio irá depor em Curitiba. Mas não se incomodou.

Aos deputados parece ter passado despercebido outro movimento sutil do juiz: a escolha da cidade para assinar a sentença que condenou a 15 anos e quatro meses de prisão o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Brasília é o coração de todas as tramas em curso contra a Lava Jato. Conspira-se, ali, abertamente para sufocar ou impor limites à Lava Jato. Ela começou em Brasília ao investigar uma rede de postos de combustíveis.

O xeque ao PP, com a denúncia também de seis dos seus atuais deputados federais e quatro ex-deputados, significa que mais adiante outros partidos deverão ser alvos da mesma acusação. Natural que sejam. Beneficiaram-se de propinas como o PP. De recursos desviados da Petrobras como o PP. E vários dos seus membros enriqueceram igualmente. Quem garante que eles sobreviverão quando a Lava Jato tiver chegado ao fim?

Mais de um partido não sobreviveu à Operação Mãos Limpas, na Itália. Foi devastador para eles a descoberta do mar de lama que acabou por afogá-los. De resto, seus principais líderes foram fulminados pela operação, como aqui estão sendo as estrelas de partidos de todos os tamanhos. Os resultados das eleições do próximo ano poderão provocar um dos maiores expurgos políticos da nossa história.

Com o xeque ao PP e a condenação de Cunha, os procuradores e Moro desidrataram ainda mais o discurso de que o PT e Lula são vítimas de perseguição política e objetivos preferenciais da Lava Jato. Cunha, sem o qual o impeachment de Dilma jamais teria existido, está em situação pior do que Lula. O PP tem mais nomes envolvidos com a Lava Jato do que o PT. Tal condição poderá ser reivindicada no futuro pelo PMDB.

Impugnação da chapa Dilma-Temer ameaça a pinguela

28/03/2017 – 02h32

Ricardo Noblat

“O governo atual é uma pinguela”, disse Fernando Henrique Cardoso

Todos foram pegos de surpresa – o governo, o Congresso e até mesmo os ministros que no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que julgarão o caso. Eles contavam que só daqui a 15 dias ou um pouco mais, o ministro Herman Benjamin apresentasse seu voto como relator no processo movido pelo PSDB que pede a cassação da chapa Dilma-Temer por abuso de poder econômico e outras irregularidades.

Benjamin despachou, ontem, cópia do seu voto para os demais seis ministros do TSE. Telefonou ao presidente, Gilmar Mendes, e pediu que incluísse o processo na pauta de julgamentos do plenário. A cumprir-se a norma, o processo deverá ser votado na próxima semana. Gilmar adiantou que a norma será respeitada. Se for, e se nenhum ministro pedir vista do processo, o caso será encerrado em seguida.

É provável que algum ministro peça, sim.  O assunto é polêmico e de alto teor explosivo. O voto de Benjamin tem pouco mais de mil páginas. E quanto mais tempo demorar para ser apreciado, melhor para o governo. Em abril, o ministro Henrique Neves deixará o TSE com o término do seu mandato. Em maio será a vez da ministra Luciana Lóssio. Gente que cerca o presidente Michel Temer acha que os dois votariam pela cassação.

O plenário é composto de sete ministros. Com três votos pela cassação, incluído o de Benjamin, bastaria mais um para decidir a parada. Benjamin se recusa a revelar seu voto. Só o fará quando o ler em plenário. Mas até os apontadores do jogo do bicho na Esplanada dos Ministérios sabem que ele votará pela cassação da chapa completa. Há sólida jurisprudência no Supremo Tribunal Federal (STF) sobre o julgamento de contas eleitorais.

Se titular de chapa e vice são votados juntos, as contas de campanha deles não podem ser separadas. No início de 2015, quando o PSDB entrou com o processo contra a chapa, Dilma ainda era presidente e Temer não passava de um “vice decorativo”. Foi ele mesmo quem se considerou assim. Com o impeachment de Dilma, o PSDB passou a governar junto com o PMDB de Temer. Não quer mais cassá-lo, só a Dilma.

A eventual cassação da chapa não produziria efeitos imediatos. As defesas de Temer e de Dilma ainda poderiam entrar com recursos no TSE. E mais tarde, se necessário, no STF. Mas o efeito político do julgamento poderia ser catastrófico para o governo às vésperas de votações importantes no Congresso – entre elas a da reforma da Previdência, por ora, emperrada. Temer aposta na força de Gilmar para sustentar a pinguela

Pedro Almino Queiroz compartilhou um link.
6 h ·

O diplomata João Almino foi eleito para a Academia Brasileira de Letras.
G1.GLOBO.COM

Um tira-gosto de torresmo para os amigos , uma crônica que dá inicio ao livro ” Polindo Palavras na Lousa da Memória ” . Uma homenagem, mais que merecida ao genial e querido Belchior !

Uma rua secundária , pacata , que imita a vida humana terminando de modo súbito , acolhe uma aconchegante praça , bem arborizada , ali pras bandas do bairro Dionísio Torres , na loira desposada do sol e amante de eternos boêmios. Não haveria de faltar naquele logradouro , um quiosque onde rola um som mecânico da tradicional Música Popular Brasileira , pela noite adentro .Um certo rapaz latino-americano , sem dinheiro no banco e vindo da cidade de Sobral , no interior do Ceará , enche com sua voz rascante , belos poemas musicados para o regozijo de notívagos que ali tomam acento .
Antônio Carlos Belchior Fontenele Fernandes nasceu no município de Sobral , no Ceará, no dia 28 de outubro de 1946 .Teve infância tranquila em sua cidade natal e migrou , como muitos , para a capital do estado , Fortaleza , em 1962 . Estudou Filosofia e Humanidades e em 1968 iniciou o curso de medicina na Universidade Federal do Ceará . Sua redação na prova de português para o acesso à universidade sobre o poema “ Telha de Vidro “ da cearense Rachel de Queiroz , obteve nota máxima . Em 1971 segue para o sul do país onde tece uma rica carreira artística , deixando para trás seus estudos médicos . A partir de então lançou 22 discos , quase que um trabalho por ano , com letras de músicas bem elaboradas e com temática envolvendo a inquietação da juventude , a saudade de sua terra natal e sobre o cotidiano , como “ à palo seco “ , que se abate no lombo “ do pacato cidadão comum “ .
“ Era um cidadão comum como esses que se vê na rua / falava de negócios , ria , via show de mulher nua / vivia o dia e não o sol , a noite e não a lua / acordava sempre cedo ( era um passarinho urbano ) / embarcava no metrô , o nosso metropolitano / era um homem de bons modos : “ com licença ; foi engano “ / era feito aquela gente honesta , boa e comovida / que tem no fim da tarde a sensação da missão cumprida / acreditava em Deus e em outras coisas invisíveis / dizia sempre sim aos senhores infalíveis / pois é ; tendo dinheiro não há coisas impossíveis / mas o anjo do Senhor ( de quem nos fala o Livro Santo ) / desceu do céu pra uma cerveja , junto dele , no seu canto / e a morte o carregou , feito um pacote , no seu manto / – que a terra lhe seja leve – “ .
E segue a saudade plantando sementes no coração selvagem de Belchior , mesmo no período discricionário então vigente ( 1964 – 1985 ) , sendo o poeta sobralense , capaz de matar ou morrer , armado com seu tição de rimas .

“ Quando eu não tinha o olhar lacrimoso / que hoje eu trago e tenho / quando adoçava meu pranto e meu sono / no bagaço de cana do engenho / quando eu ganhava este mundo de meu Deus / fazendo eu mesmo o meu caminho / por entre as fileiras do milho verde / que ondeia , com saudade do verde marinho / eu era alegre como um rio / um bicho , um bando de pardais / como um galo quando havia / quando havia galos , noites e quintais / mas veio o tempo negro e , a força fez comigo o mal que a força sempre faz / não sou feliz , mas não sou mudo / hoje eu canto muito mais “ .

E assim Belchior, agora um senhor beirando a casa dos setenta anos , permanece atual , com seu trato maneiro , em linguagem poética , jogando rimas em temas ligados a infância ( Hora do Almoço ) , juventude ( Como Nossos Pais ) , a angústia da cidade grande ( Alucinação ) e filosofia ( Divina Comédia Humana ) . Uma formação humanística bem plasmada permitiu a Antônio Carlos Belchior pousar em várias áreas , sempre com versos de uma pungente beleza .

“ Estava mais angustiado que um goleiro na hora do gol /quando você entrou em mim, como um sol no quintal / aí um analista amigo meu disse que desse jeito / não vou ser feliz direito / porque o amor é uma coisa mais profunda que um encontro casual / aí um analista amigo meu disse que desse jeito / não vou viver satisfeito /porque o amor é uma coisa mais profunda que uma transa sensual / deixando a profundidade de lado / ah ! eu quero é ficar colado à pele dela noite e dia / fazendo tudo e de novo dizendo : sim à paixão morando na filosofia / quero gozar no seu céu , mas pode ser no seu inferno / viver a divina comédia humana onde nada é eterno/ ora – direis : ouvir estrelas , certo ! perdeste o senso / e eu vos direi no entanto / enquanto houver espaço , corpo , tempo e algum modo de dizer não , eu canto “ .
Caro Belchior, a patota de boêmios que curte uma caninha com torresmo aqui na praça Rogério Fróes , em Fortaleza , e a Turma de Medicina da UFC ( 1973 ) , que , também é a sua , faz chegar até você , aí no aconchego do seu próprio universo , que seguiremos ouvindo estrelas , banhados em prata pela lua que vigia nossos trôpegos passos , e levando em frente nossa divina comédia humana onde nada é eterno . Agradecemos , sua agradável companhia diária e de resto , só muita saudade .

JOÃO ALMINO

BIOGRAFIA

Escritor e diplomata, João Almino nasceu em Mossoró, no Rio Grande do Norte, em 1950. É autor do Quinteto de Brasília, composto pelos romances Idéias para Onde Passar o Fim do Mundo (indicado para o Prêmio Jabuti, ganhador de Prêmio do Instituto Nacional do Livro e do Prêmio Candango de Literatura), Samba-Enredo, As Cinco Estações do Amor (Prêmio Casa de las Américas 2003), O Livro das Emoções (Record, 2008; finalista do 7º Prêmio Portugal Telecom de Literatura 2009 e finalista do 6º Prêmio Passo Fundo Zaffari & Bourbon de Literatura 2009) e Cidade Livre (Record, 2010; Prêmio Passo Fundo Zaffari & Bourbon de Literatura 2011 de melhor romance publicado no Brasil entre 2009 e 2011; finalista do Jabuti e do Prêmio Portugal Telecom de Literatura 2011). Alguns de seus romances estão traduzidos para o inglês, o francês, o espanhol e o italiano. Seus escritos de história e filosofia política são referência para os estudiosos do autoritarismo e a democracia. Entre estes, incluem-se os livros Os Democratas Autoritários (1980), A Idade do Presente (1985), Era uma Vez uma Constituinte (1985) e O Segredo e a Informação (1986). É também autor de Naturezas Mortas – A Filosofia Política do Ecologismo (2004), de Brasil-EUA: Balanço Poético (1996), Escrita em contraponto (2008) e O diabrete angélico e o pavão: Enredo e amor possíveis em Brás Cubas (2009). Doutorou-se em Paris, orientado pelo filósofo Claude Lefort. Ensinou na UNAM (México), UnB, Instituto Rio Branco, Berkeley, Stanford e Universidade de Chicago.

OBRAS DO AUTOR:

FICÇÃO:

  • Idéias para Onde Passar o Fim do Mundo, 1987.
  • Samba-Enredo, 1994.
  • As Cinco Estações do Amor, 2001.
  • O Livro das Emoções, 2008.
  • Cidade Livre, 2010.

NÃO-FICÇÃO:

  • Os Democratas Autoritários, 1980.
  • A Idade do Presente, 1985.
  • Era uma Vez uma Constituinte, 1985.
  • O Segredo e a Informação, 1986.
  • Brasil/EUA, Balanço Poético, 1997.
  • Literatura Brasileira e Portuguesa Ano 2000 (org. com Arnaldo Saraiva), 2000.
  • Rio Branco, a América do Sul e Modernização do Brasil (org. com Carlos Henrique Cardim), 2002.
  • Naturezas Mortas – A Filosofia Política do Ecologismo, 2004.
  • Escrita em Contraponto – Ensaios Literários, 2008.
  • O diabrete angélico e o pavão: Enredo e amor possíveis em Brás Cubas, 2009.

OS CÉUS DE BRASÍLIA: UMA ENTREVISTA COM JOÃO ALMINO

@redrimell

O escritor João Almino recebeu boas críticas na Irlanda, nos Estados Unidos e na França depois que seus romances Cidade livre e O livro das emoções foram traduzidos para o inglês e o francês. O livro das emoções chegou a ser indicado para o Dublin Literary Award 2014, mas infelizmente ficou fora da seleção de finalistas. Valeu a menção. Dizem que o romance causou um pequeno burburinho por lá. Almino concedeu uma entrevista arádio RTE para falar do romance. Na França, Cidade livre esteve nas páginas do Le Fígaro e no blog do Le Monde. Em junho ele participa do Festival Étonnants Voyageurs em Saint-Malo, na França. Vejam, não estou querendo dizer com isso que ele seja um fenômeno de vendas nesses países. Pode ser um reconhecimento específico e pequeno, mas não deixa de ser interessante para um autor encontrar leitores de outros países interessados em seus livros.

No Brasil, os livros de João Almino foram publicados pela editora Record e também foram bem de crítica, diga-se de passagem. Nos Estados Unidos e na Irlanda, os romances saíram pela Dalkey Archive Press que costuma traduzir e publicar literatura do mundo todo com características mais experimentais. A mesma editora já publicou, por exemplo, Ignácio Loyola de Brandão, Ivan Ângelo, Osman Lins e Paulo Emílio Sales Gomes. Na França, Hôtel Brasilia (Cidade livre) saiu pela Editions Métailié.

Vale registrar que além de João Almino, também participam do Festival Étonnants Voyageurs os brasileiros Raimundo Carrero, Marcelino Freire, Ana Paula Maia, Bernardo Carvalho, Patrícia Melo, Luiz Ruffato, João Paulo Cuenca e André Diniz.

Aproveitando a boa recepção, o jornalista, tradutor e crítico Jonathan Blitzer entrevistou João Almino para o falar a respeito de sua obra.

@zabumba

OS CÉUS DE BRASÍLIA: UMA ENTREVISTA COM JOÃO ALMINO

Jonathan Blitzer: Você é natural do nordeste do Brasil – Mossoró – mas, seus romances o levaram ao coração geográfico do país: Brasília. Como é que você chegou até lá, exatamente?

João Almino: Eu não queria revisitar a literatura regionalista nordestina que eu tanto admirava e queria tomar como ponto de partida a literatura brasileira dominante da época. Brasília representava o novo. Era de certa forma um espaço vazio, sem tradição literária, e, por isso, me deu mais liberdade para criar. Eu conhecia a cidade porque tinha vivido lá por alguns meses em 1970 e também depois, em três ocasiões diferentes. Gostaria também de acrescentar que era fácil levar o nordeste a Brasília, uma cidade de imigrantes.

O que mais te interessa em Brasília?

Em primeiro lugar, a cidade como um símbolo ou um mito que, como projeto, acompanha toda a história do Brasil independente. Também a cidade como uma metáfora para o mundo moderno, com suas promessas e suas frustrações. A tensão entre o projeto futurista, a utopia, e o atual caos urbano. O contraste entre os elementos racionais do projeto, ainda visíveis no chamado Plano Piloto, e os desenvolvimentos irracionais espontâneos que a rodeiam nas cidades-satélites e comunidades místicas. Além disso, a cidade como uma encruzilhada de vários Brasis e sua natureza transcultural, através da qual eu posso ver o país como um todo.

Você tem alguma memória particular do crescimento de Brasília? Você era apenas um menino quando a cidade estava em desenvolvimento… e, no entanto, imagino que de alguma forma você deve ter sentido aquela novidade…

Eu não vivi em Brasília naquela época, mas tenho memórias de infância da cidade, ler sobre o assunto em jornais e revistas, ouvir histórias de membros da família que estavam lá durante a construção e até mesmo acompanhar na rádio todos os acontecimentos da inauguração. A construção de Brasília atraiu a atenção não só dos brasileiros de todos os cantos, mas também de estrangeiros que ficaram fascinados com a ousadia de seu projeto.

Quando você começou a escrever Ideias para onde passar o fim do mundo, você imaginava que viriam outros cinco romances sobre Brasília?

Neste primeiro romance, cada capítulo tem uma personagem principal. No início, eu pensei que cada uma dessas personagens merecia um romance próprio. Embora algumas dessas personagens tenham aparecido em livros posteriores, quando eu escrevi o meu segundo romance, ficou claro para mim que nem todos precisavam de um maior desenvolvimento. Às vezes, personagens menores prevaleciam, e novas personagens continuavam chegando.

Em As cinco estações do amor, uma personagem diz: “Minha juventude está perdida. A Brasília do meu sonho de futuro está morta. Reconheço-me nas fachadas de seus prédios precocemente envelhecidos, na sua modernidade precária e decadente”. Este romance, e o que veio depois dele, O livro das emoções, são livros nostálgicos, melancólicos. Mas esses sentimentos também foram proporcionais a um senso de possibilidade e uma crença na regeneração. Esta saudade não parece tão presa ao passado quanto ligada ao futuro. No caso de Ana, suas lamentações sobre o passado são quase menos acentuadas do que o fato de sentir “o seu sonho do futuro” desaparecer.

Um aspecto interessante é que Brasília representa o moderno, que agora pode ser visto como passado. Lá, as ruínas do moderno estão presentes. Brasília radicalizou uma característica do próprio Brasil: ser uma cidade do futuro, que ainda não tem passado, por assim dizer. Há pouca esperança e uma grande quantidade de memória. Mas, claro, a realidade pode provar que o novo tem a sua história, a sua memória; nada pode ser criado a partir do zero, e a utopia em vez de significar um futuro sempre inatingível pode ser redefinida como uma forma de reorganizar o presente. Em As cinco estações do amor, Ana tenta esquecer para renascer. Indo na direção contrária, em O livro das emoções, Cadu tenta viver através da memória. De certa forma, ambas são tentativas frustradas, mas tem resultados significativos. Tanto o ato de tentar apagar o passado, como a tentativa de recuperá-lo, deixam suas próprias marcas, criando uma nova realidade: as histórias que realmente importam.

O pensamento de Ana me lembra uma frase do romancista argentino Juan José Saer num livro chamado El entenado. Um velho olha para trás em sua vida e num ponto diz: “Y si ahora que soy un viejo paso mis días en las ciudades, es porque en ellas la vida es horizontal, porque las ciudades disimulan el cielo“. A Brasília dos seus livros pode ser o oposto. Como a cidade cresce para cima, Ana sente que sua vida se torna cada vez mais horizontal, até um pouco estagnada.

Brasília, que parece ser apenas o céu, pode ser redescoberta através de vidas reais e dramas verdadeiros. Na medida em que Ana olha mais atentamente ao seu redor, ela vai encontrar dimensões inesperadas de sua vida que vão tirá-la da inércia em que ela estava.

Depois temos Cadu, de O livro das emoções. Ele é um fotógrafo de profissão, um filantropo e bon vivant que vive seus últimos anos sozinho e cego. E, no entanto este é o lugar onde sua história começa. Evoca alguém como Brás Cubas, de Machado de Assis: o brilho final, o autoconsciente quebra-cabeças da memória. Quão presente Machado de Assis estava enquanto você escrevia este livro? Borges também está sempre presente. Você poderia falar onde você buscou inspiração para este romance?

Cadu é um fotógrafo no meu primeiro romance. Depois de publicar o meu terceiro romance, As cinco estações do amor, onde o narrador, em primeira pessoa, é uma mulher que teve um caso com Cadu, eu pensei que tinha chegado o momento de escrever um romance a partir de sua perspectiva. Pensei num álbum de fotografias que tinha um significado especial para a personagem, e cuja descrição poderia por si só criar um enredo. Fazer de Cadu um cego que recria suas fotografias pela memória, faria dele o tipo de narrador que eu precisava para transmitir ao leitor essas imagens exclusivamente através de palavras. Eu também adicionei uma camada de reflexão sobre a fotografia. Há muito tempo eu tive a ideia de escrever um ensaio sobre fotografia que nunca escrevi. Assim, fragmentos deste possível ensaio foram espalhados em alguns pensamentos e observações de Cadu. Quanto a Machado e Borges, não tentei imitá-los, mas concordo que alguma inspiração para aspectos ou passagens deste livro pode ter vindo deles: Borges, afinal, era cego, e a perspectiva de um velho manter uma distância de si mesmo para ver melhor o seu passado está presente em seus contos. Cadu pode ser visto como um Brás Cubas, mas a estrutura do livro, em forma de diário, pode ser comparada mais com Memorial de Aires, o último romance de Machado, como observou um crítico brasileiro.

Quando você começou a trabalhar em O livro das emoções num sentido mecânico? Basicamente, o livro é uma articulação de dois diários separados escritos por Cadu em dois momentos diferentes de sua vida. Quão entrelaçadas estavam essas histórias quando você começou?

O diário refere-se à descrição e comentários sobre as fotografias do “livro das emoções”, uma espécie de álbum sentimental. Assim eu tive que articular o diário e o álbum juntos. As fotografias foram tiradas há muitos anos, mas o que o leitor lê é o que está na mente do narrador quando ele recorda cada uma delas. Enquanto o narrador compõe com fotografias este livro de seu passado, ele vive sua vida cotidiana, que é o descreve o diário.

Qual era o “tempo presente” em que você estava operando no momento de retroceder e avançar entre os dois momentos na vida de Cadu?

Na verdade estou sempre lidando com o presente. O futuro imaginário em que o fotógrafo observa seu passado e compõe seu diário serve o propósito de combinar o passado narrado com o nosso presente.

Quem são os autores que mais te inspiraram?

Não sei se aprendi as lições, mas os escritores brasileiros que eu mais admiro são Machado de Assis, Graciliano Ramos e Clarice Lispector. Além deles e para manter a lista curta, devo mencionar Borges, Proust e Dostoiévski.

Sua formação como um filósofo – é uma identidade que você mantém separada da sua vida como romancista?

Sim. Os processos são muito diferentes e no meu caso não coincidem no tempo. Embora eu tentasse escrever ficção desde o início, primeiro publiquei alguns ensaios em filosofia. Quando comecei a publicar meus textos de ficção, abandonei a escrita na filosofia, com exceção de alguns ensaios – mas não completamente a leitura de filosofia. Eu nunca tentei transferir minhas indagações filosóficas para os romances. No entanto, indiretamente, um pouco da minha formação filosófica pode ter inspirado ideias, algumas às vezes de maneira irônica em alguns dos meus personagens. Por exemplo, em As cinco estações do amor, Ana desenvolve uma chamada “filosofia da instantaneidade”. Esta filosofia é a respeito de alguns dos atuais conceitos de tempo real, o que a filosofia do humanitismo proposto pela personagem de Machado (Quincas Borba) foi para as ideias evolucionistas do século XIX. Ele usa algumas premissas válidas para chegar a algumas conclusões absurdas. No caso da instantaneidade, o conceito em si precisa ser redefinido quase a cada novo instante.

Você está trabalhando em alguma coisa agora?

Depois dos romances que você mencionou, eu publiquei Cidade livre e agora estou trabalhando em outro romance. Não gosto de falar sobre o trabalho em andamento. O que eu posso dizer é que, neste romance, minhas personagens deixam Brasília por um momento e até passam algum tempo na Espanha.

A entrevista acima foi originalmente publicada pelo Buenos Aires Review e traduzida com autorização de Jonathan Blitzer.

@amorimbora
***

Trecho do romance Cidade livre publicado pela editora Record, em 2010.

(…)

Minha insônia de hoje é o prolongamento daquelas horas quando, na escuridão da noite, eu ouvia barulhos de bêbados pela rua, os latidos de meu cachorro Tufão, as araras que moravam no fundo da casa ou alguma coruja solitária, e abria os olhos para o caleidoscópio de cinzas e negros que desenhavam monstros nas paredes.

Para dar vida à história, bastava eu me transpor para um dia de minha infância, me imaginar no meio de uma avenida da Cidade Livre, e então veria minhas tias desfilando suas formas e trejeitos, Valdivino sentado em frente a uma mesinha  transcrevendo cartas, papai conversando na porta de um bar, uma menina de tranças e olhos negros andando de bicicleta, Tufão me seguindo, e veria o colorido das lojas, dos prédios de madeira, carros gordinhos e pretos estacionados na lateral com seus pneus exibindo círculos brancos, e então subiria um cheiro de gasolina, de óleo, de monturos e bostas de cavalo, e apareceriam em tela grande e colorida histórias de crimes, pecados, desesperos e grandes futuros.

Olho para um dia de minha infância e vejo três personagens masculinos conversando em frente a nossa casa, para onde tia Francisca acaba de trazer algumas cadeiras, e nem preciso descrever para vocês a casa de madeira e sem calçada igual a tantas outras que se veem nas fotografias daquele tempo, em frente à qual, eu dizia, os três personagens conversam conversas silenciosas, gesticulam frases, enunciam palavras que não ouço ou, se ouço, não entendo e, se entendo, não me interessam, um deles de rosto oval, branco e bem barbeado, com alguma marca de desgosto, olhar agudo e jocoso, expressão de homem bem-sucedido, que acumulou experiências pela vida. Tufão está sentado a seu lado, ouvindo suas conversas de orelha em pé. É papai.

O segundo, com mãos para trás das quais desce o chapéu, tem um corpo musculoso e bem moldado, ar firme e franco em seu rosto queimado de sol, bigodes bem aparados, e quem o olhasse sentiria inveja de sua aparência feliz. É Roberto, quando ainda não se sabia se seria namorado de tia Francisca ou de tia Matilde.

O terceiro, de uma simplicidade tosca, com um chapéu grande demais para sua cabeça pequena, é conversador, parece inteligente e é o único com esporas nas botas, tendo chegado montado num burro, mas, se atrai minha atenção, é por sua fragilidade. Quando tira as mãos dos bolsos, gesticula sem parar, balança-se para a frente e para trás sobre suas pernas de cambito e dá a impressão de que sairá voando se soprado pelo vento. Os outros dois, quando passam por ele, o olham de cima para baixo. Pela descrição vocês já terão adivinhado: é Valdivino.

Que saudades são essas que sentimos de uma felicidade inventada pela lembrança? Não, não é de hoje minha desconfiança nem minha dúvida, que já estavam lá nos meus tempos de menino, mas tive de esperar vários anos para percebê-las. Meus desejos mudaram, minhas aspirações são outras, já fui bem-sucedido antes de perder quase tudo, mas as horas passam da mesma forma em outros relógios, e o sol, diante das construções que encheram a paisagem, pinta com as mesmas cores a manhã e as esconde igualmente no crepúsculo. Você, meu único e fiel seguidor do blog, tem razão, por que remexer no que está quieto e esquecido?

Naquela primeira noite em que reencontrei papai para tirar minhas dúvidas, ele negou o assassinato de Valdivino, era delicado para mim ressuscitar a velha suspeita, e era melhor, ele me disse, acreditarmos na versão da profetisa do Jardim da Salvação, Íris Quelemém, de que Valdivino não havia morrido e talvez nunca viesse a morrer, sempre fora um insone e um sonâmbulo, ainda andava solto, caminhando dia e noite pela floresta, em busca de Z, a cidade perdida. Deixa isso pra lá, João, são águas passadas.

Às vezes, quando eu ficava recolhido a meus devaneios, me invadia a memória nossa vida na Cidade Livre, feita de lugares e cenas, bem como de histórias de papai, de minhas tias e de outros personagens à nossa volta — entre eles, principalmente Valdivino —, as coisas, fatos e pessoas de minha infância dispostos como numa enorme fotografia de família ou como num tabuleiro distante onde a variedade já se havia desfeito na uniformidade imposta pelo tempo. Somente papai podia, pela primeira vez, reorganizar as peças daquele tabuleiro e retirar da imobilidade a minha memória. É que ele não está morto, ninguém o matou, papai me respondia, está viajando ou apenas dormindo, como Íris disse.

Autobiografia (*)

João Almino

João Almino, Vida cigana

Como o presente reescreve o passado e as histórias sempre se refazem, uma

autobiografia é só o que rememoramos agora e, se deve caber em determinado

número de caracteres, é uma pequena seleção do que rememoramos. Apesar disso, vistos

de distintas formas, certos elementos de nossa biografia teimam em permanecer nas

manifestações de nossas lembranças.

Minha literatura está cheia de biografias e memórias inventadas, e, se nunca havia feito

autobiografia, foi por boas razões. O leitor exigente que me imaginava personagem de

romance pode abandonar a leitura deste texto imediatamente, pois o que eu poderia

contar de heroico, dramático ou apaixonante? Já o leitor capaz de associar sua

curiosidade a uma dose de paciência, certo de que esta história não passará de duas

páginas, pode querer saber que passei minha infância em Mossoró, no Rio Grande do

Norte. Morava à Rua Dionísio Filgueira 219, numa casa hoje demolida. Ficava próxima

ao centro, a poucas quadras do mercado central e da Catedral de Santa Luzia. Naquela

época de minha infância a cidade ainda era relativamente pequena. Tanto assim que não

havia por que temer atravessá-la a pé, sozinho, quando passava os domingos na casa de

meus primos, no Alto da Conceição. E o número de telefone tinha três dígitos: 331.

Parte dos brinquedos nós mesmos inventávamos. Carteiras de cigarro se transformavam

em notas de dinheiro depositadas numa instituição financeira situada embaixo da mesa da

sala. Disputava, em jogos, castanhas de caju. Esculpia com canivete meus cavalos de pau.

Comprados em loja, não muito mais do que bolas de gude, um ou outro caminhão de

madeira no natal, uma metralhadora de plástico após uma ida ao dentista ou lança-

perfumes também de plástico durante os carnavais. Brincávamos nas ruas, nas calçadas,

ou então me deitava no parapeito da varanda para ver as normalistas passarem. A cidade

tinha orgulho de ser a segunda a libertar os escravos, e uma vez por ano eu entrava na fila

para cumprimentar um ex-escravo de noventa anos, sentado num banco de praça.

Entre os fatos marcantes, destaco o de estar vivo, e não porque tenha escapado das

bombas de Beirute quando lá vivi por dois anos em plena guerra, mas sim porque uma de

minhas irmãs, Maria José, hoje falecida, me salvou duas vezes: de um carro quase em

frente à casa e de um forte choque elétrico, quando eu, aos três anos, com vocação

científica precoce, desmontava um interruptor de luz.

Se tenho um lado sertanejo, vem de minha mãe, Natalia de Queiroz e Souza. No sertão do

Ceará, no município de Iracema, meu avô Honorato Queiroz tinha uma fazenda, onde eu

andava a cavalo e apostava corridas de cem metros. Era o lugar da liberdade, de rios

secos no verão e de enchentes no inverno; de paisagens e histórias que caberiam num

romance de José Lins do Rego. Andava de pés descalços e chegava das férias de joelhos

ralados. Colhi algodão, debulhei feijão, e de noite, no escuro das calçadas, as histórias de

alma me davam medo.

Tive sorte: vivi cercado de mulheres, o que, convenhamos, torna a vida menos monótona

e mais divertida, cheia de histórias para contar, pois em geral suas conversas são mais

ricas e emocionantes do que as de rodas masculinas. Com quatro irmãs (além de Maria

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José, Salete, Fátima e Bernadete) e várias primas (as mais próximas as da família Queiroz

Maciel), não era raro ser convidado para ser padrinho de batismo de bonecas ou então o

padre a oficiar o batismo. Meu único irmão, dezesseis anos mais velho, saiu de casa cedo

para estudar. Com a morte de meu pai, quando eu tinha doze anos, fiquei eu, o caçula, em

casa a maior parte do tempo com minhas quatro irmãs e minha mãe, embora a presença

de Pedro Almino, que logo se formaria em medicina, fosse constante. Ele exerceria para

mim o papel de um segundo pai.

Eu tinha ainda doze anos e um pai recentemente falecido quando nos mudamos para a

Vila Mondubim, nos arredores de Fortaleza. Por essa época eu já não pensava em ser

padre, mas sim arquiteto, jornalista, psicólogo e, como era bom em matemática, fui

incentivado por meus professores a me preparar para engenharia. Mudei a tempo: estudei

direito, administração e economia, concluindo o primeiro. O interesse pela pintura

substituí pela fotografia, à qual me dedico um pouco até hoje, havendo publicado

recentemente o livro de fotos Brasília; deixei a escrita de poesia para ser leitor de poesia,

e o convívio com poetas me levou a envolver-me na elaboração de antologias. De forma

insistente, havia a literatura e a diplomacia, carreiras que julgava compatíveis uma com a

outra, talvez pela admiração que tinha por alguns diplomatas escritores, como João

Cabral, Vinicius e Guimarães Rosa.

Queria sair do Ceará, morar no Rio, e o caminho mais certo passava pelo Instituto Rio

Branco. No Rio aluguei um quarto num apartamento do Catete. Sobrevivi dando aulas de

inglês, o que já fazia em Fortaleza, onde dirigia um curso de línguas. Financiei minha

viagem com um prêmio de um concurso nacional sobre direito de autor e mais a venda de

um pequeno terreno que meu pai me deixou de herança, a Fazendola ou sítio Santa Maria,

onde ele tinha uma vacaria. Meu irmão Pedro Almino me diz que hoje é onde estão

localizados os conjuntos habitacionais Abolição I e Abolição II.

Na hora de fazer mestrado, encaminhei-me para a sociologia, porque queria ler Marx e os

marxistas franceses, alguns dos quais vim a encontrar na França anos depois, quando

acompanhei e senti bem dentro de mim a chamada crise do marxismo na segunda metade

dos anos setenta. Fiz meu doutorado em Paris numa época ainda marcada pelo marxismo

e também pelo espírito de 68 e a cultura hippie, dos quais não fugi. Sartre ainda era vivo,

frequentei as aulas de Foucault no Collège de France e seu seminário restrito, aulas

esparsas de Barthes e de Bourdieu, mas o que mais me atraiu foi o grupo da antiga revista

Socialisme ou Barbarie. Com Lefort, meu diretor de tese, aprendi não apenas a ler

criticamente Maquiavel e Marx, mas também a respeitar algumas ideias liberais e

conservadoras, de Tocqueville, Burke ou Aron, e descobri que os direitos humanos, os

direitos sindicais, a liberdade de organização e de expressão não eram direitos burgueses:

eram fundamentais para existência da sociedade. Daí surgiu Os Democratas Autoritários,

que creio ter ajudado a lançar o debate sobre uma Assembléia Constituinte.

Mas o melhor de Paris foi que conheci minha mulher, Bia Wouk, que ali vivia como

artista plástica. Eu morava na Notre Dame des Champs e frequentava o café Le Select,

onde algumas páginas de meu primeiro romance, Ideias para Onde Passar o Fim do

Mundo, foram escritas. O interesse pela literatura vinha de antes. Havia me acompanhado

praticamente durante toda a minha vida. Foi do meu pai, João Almino de Souza, que

herdei, além do nome, o gosto pela leitura. Com nove anos tive a ideia de escrever um

livro e mostrei a ele cerca de cinquenta páginas escritas num caderno de escola. Acho que

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foi o entusiasmo dele com minha escrita meu primeiro grande incentivo para que

crescesse aquele germe que pouco a pouco foi tomando conta de mim. Ele nunca tinha

frequentado escola, foi um autodidata, mas lia muito. Numa pequena estante, dedicava

uma meia prateleira a alguns livros de romancistas regionalistas do Nordeste, e várias a

livros de história do Brasil. Era um homem santo, dedicado à família, aos livros e

também à igreja. Às cinco da manhã me acordava para irmos juntos à Feira e à missa.

Quando na minha literatura tive de criar, às vezes, pais cruéis ou corruptos, nunca pude

me inspirar nele, a não ser por contraste. Em Mossoró os mais velhos se lembrarão de

suas contribuições à cidade, em especial seu empenho pela criação da União Caixeral.

Com minha história e por causa de minhas primeiras leituras, teria me enveredado pela

literatura regionalista nordestina não fosse o desejo, mais forte, de não repetir o que já

estava feito. Em 1985 o Brasil entrava numa nova fase política, e a literatura precisava

renovar-se. Achei que Brasília, por ser cidade nova, sem tradição nem história dissociada

do mito modernizador de seu projeto, se prestaria a uma literatura desenraizada, que

retratasse as identidades múltiplas, cambiantes e em aberto e espelhasse algo que tenho

chamado de universalismo descentrado. Daí surgiram os demais romances: Samba-

Enredo, As Cinco Estações do Amor, O Livro das Emoções, Cidade Livre e o

recentemente publicado Enigmas da Primavera. No lugar de histórias que me seguissem

mundo afora, trouxe os lugares por onde passei àquele ponto de referência. Em Brasília,

onde residi em quatro ocasiões e por um período total de mais de dez anos, coloquei

também o Nordeste e o mundo – ou pelo menos o mundo daquelas muitas andanças

propiciadas pela diplomacia, carreira que também abracei e à qual dediquei muito de meu

tempo e de minhas energias: além de Paris, Beirute, México, de onde voltamos em 1985

ao Brasil no momento da democratização, época em que nasceu nossa primeira filha,

Letícia, hoje arquiteta; Washington, onde nasceu nossa filha mais nova, Elisa, jovem

escritora, crítica de arte e tradutora; São Francisco, Lisboa, Londres, Miami, Chicago e

Madri. Sempre com o pé na estrada, portanto; vida cigana.

Algumas dessas cidades me propiciaram o convívio com a vida universitária. Dei aulas,

de filosofia ou literatura, para continuar aprendendo: na Universidade de Brasília,

Instituto Rio Branco, UNAM, Berkeley, Stanford e Universidade de Chicago, o que me

levou a publicar, ao lado dos romances, livros de ensaios filosóficos ou literários. Entre

os primeiros estão o O segredo e a informação e A idade do presente. Os ensaios

literários, escritos de circunstância, para atender, como escritor, a convites para participar

de conferências estão reunidos em dois livros: Escrita em contraponto e O diabrete

angélico e o pavão, este último sobre Machado de Assis.

Em meio a tantos interesses e lugares, a literatura tem sido minha companhia mais fiel,

por ser igualmente companheira na alegria e na tristeza, na esperança e no desespero, na

tranquilidade e na angústia. Escrevo ficção todos os dias. Publicar é fundamental, ter

leitores também, mas o mais importante mesmo é escrever, como quem tem de fazer

exercício físico diariamente, pois no meu caso a escrita é uma forma de organização do

caos da vida.

(*) Originalmente publicada no Jornal de Letras, Lisboa, em 12 de janeiro de 2011,

p.12. Atualizada em 2015.

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Autobiografia_Mossoró.docx

Exibindo Autobiografia_Mossoró.docx.

 

Livros Regionais

domingo, 12 de março de 2017

João Almino na ABL

Por Lúcia Rocha

luciaro@uol.com.br

João Almino

Na quinta-feira, dia 9 de março de 2017, a cidade de Mossoró foi citada no Jornal Nacional com uma excelente notícia. A apresentadora Renata Vasconcelos anunciou que o diplomata João Almino era o novo membro da Academia Brasileira de Letras, na vaga deixada por Ivo Pitanguy, médico e escritor, falecido ano passado.
O mundo cultural de Mossoró recebeu a boa notícia com surpresa – a cidade foi anunciada também – visto que pouquíssimas pessoas sabem da existência de João Almino, que por sinal, tem perfil no Facebook – a mais popular rede social – com no máximo dez conterrâneos, todos ligados à imprensa ou autores.

Na primeira vez que li sobre João Almino de Souza Filho, ele havia recebido um prêmio literário. Pesquisei e encontrei seu site –www.joaoalmino.com – aonde deixei mensagem eletrônica, no que ele retornou logo em seguida. Agora, com o ingresso no alto mundo intelectual do país, retomei o contato parabenizando-o e já o convocando para uma entrevista. Estava na hora do João Almino falar para seus conterrâneos. Novamente, João Almino surpreende e se colocando à disposição. Segue o conteúdo da entrevista.

João Almino participou de uma edição da Feira do Livro de Mossoró

João Almino nasceu em 1950, no centro de Mossoró, filho de Natália de Queiroz e Souza e de João Almino de Souza. O pai é natural do município de Pau dos Ferros e a mãe era cearense, nasceu na fazenda do pai, perto de Ereré, então município de Pereiro, na divisa com o Rio Grande do Norte. O pai migrou para Mossoró, para trabalhar na maior empresa da época, a Tertuliano Fernandes, tendo falecido em 1962. “O casamento foi em Mossoró e sempre moraram na Rua Dionísio Figueira, onde todos os filhos nasceram, numa casa vizinho à casa de dona Teresa e Tarcísio Maia, pais de meu colega Oto, hoje já destruída”, explica João Almino.
O casal teve sete filhos: o primeiro, José, faleceu antes de completar um ano e João Almino é  o mais novo. O irmão mais velho, Pedro Almino, é médico. “Por ordem de nascimento vêm depois minhas irmãs Salete, minha primeira professora, que me ensinou a ler e a escrever antes mesmo de eu frequentar escola; Fátima, farmacêutica bioquímica; Bernadete e Maria José, esta última já falecida. Meus pais também já faleceram. Perdi meu pai quando tinha doze anos. Naquela altura, todos nós mudamos para os arredores de Fortaleza, no Mondubim, onde vivia um tio nosso, irmão de meu pai, o tio Celso. Estudei no Colégio Cearense, um colégio marista. Voltei algumas vezes a Mossoró”, registra João.

A casa branca, aonde João Almino nasceu e viveu até os doze anos.

E já que aprendeu a ler e a escrever em casa, antes de ir para a escola, João Almino resistiu bastante ir para a escola. “Finalmente entrei, acho, diretamente no segundo ano da escola pública que ficava na própria Rua Dionísio Figueira, tendo como professora minha irmã Salete. Depois me transferi para a escola particular da dona Maria Clotilde, na Praça da Redenção, junto a Escola Técnica União Caixeiral, onde havia uma única sala de aula congregando alunos de todas as séries do curso primário.

João Almino, pai, em foto de 1930, com a mãe, Maria José Rego

Perguntado sobre que influências teve de leitura na infância ou juventude, João Almino enaltece a figura do seu pai, um autodidata. “Ele não frequentou escola, mas se tornou uma pessoa culta e muito lida. Lia sobretudo textos de história universal, História do Brasil e biografias de santos. Sempre que penso nele, vejo-o com um livro nas mãos. Tinha uma pequena biblioteca, de uma única estante, talvez de seis ou sete prateleiras. Numa delas, a mais baixa, havia livros de literatura, sobretudo alguns romances regionalistas nordestinos, de Raquel de Queiroz, José Américo de Almeida e Graciliano Ramos. Noutras prateleiras, vários volumes da brasiliana, de História do Brasil, todos bem organizados. O gosto da leitura, em mim, começou naquela biblioteca”, empolga-se.
Com uma biblioteca em casa e um pai como exemplo de bom leitor, João Almino começou a pensar em escrever livros desde cedo. “Dos nove para os dez anos escrevi muitas páginas num caderno de escola, pensando que seria um livro. Passou a ser elogiado pelo pai. “Foi dele o primeiro dos incentivos que recebi para a escrita. Já a ‘carreira’ veio com a constância e várias tentativas. Comecei a publicar relativamente tarde”, lamenta.
Sobre a leitura de autores potiguares, João Almino respondeu: “Leio Cascudo sempre e alguns livros do Vingt-un. Preciso ler mais. Conheci Vingt-un, que publicava aquela enorme coleção de livros dedicados aos mossoroenses. Publicou um a meu respeito quando estive em Mossoró, em 2003, num programa que me levou a Natal e Mossoró por ocasião da premiação pela Casa de las Américas de meu romance As Cinco Estações do Amor. Ele conheceu meu pai, João Almino de Souza, que foi membro do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte e um dos fundadores em Mossoró da Escola Técnica União Caixeral, núcleo do qual surgiu a Faculdade de Economia”, disse. Daquele curso, nasceu a hoje UERN – Universidade do Estado do Rio Grande do Norte.

João Almino é diplomata, casado com a artista plástica curitibana, Bia Wouk. Ele ocupava a função de Cônsul geral do Brasil em Madrid e atualmente reside em Brasília.

João Almino e esposa, Bia Wouk.

Livros de João Almino

Publicada por Lúcia Rocha à(s) 09:21 Sem comentários: